ENTREVISTA AO JORNAL EM QUESTÃO
(Alegrete, 07 jul. 2007)
João Alfredo Ramos Jr.
Como o projeto Quadrante da Rede Globo chegou ao senhor e ao seu conto Dançar tango em Porto Alegre?
Terá sido uma iniciativa do diretor Luiz Fernando Carvalho, pois li uma entrevista em que ele manifestava grande simpatia pela minha ficção. Mas ele não falou comigo, apenas recebi um telefonema da emissora, solicitando minha anuência e propondo os termos do contrato, que depois foi assinado.
Dizem que o diretor Luiz Fernando Carvalho, talvez o maior artista atual da tevê brasileira, é meticuloso e primoroso nos detalhes. O senhor pretende acompanhar a produção e até que ponto é possível o autor interferir na adaptação?
Não o conheço pessoalmente, mas vi a minissérie Os Maias, uma esplêndida realização. Não pretendo interferir em nenhum sentido. Nos outros filmes baseados em contos meus nem o roteiro eu li. É claro que, se o diretor me perguntar alguma coisa, tratarei de responder como puder, mas até prefiro que não me pergunte nada e faça o que achar melhor.
Há um consenso de que as mais fortes identidades culturais são a gaúcha e a nordestina, ambas com forte tradição literária. Em sua opinião, por que esse descompasso que coloca os autores do Sul em desvantagem em relação aos seus colegas nordestinos e do sudeste?
Não vejo esse descompasso, no que respeita ao aproveitamento pelo cinema ou pela televisão. Um sem-número de autores gaúchos já teve obras filmadas. Mas se fosse o caso, não me surpreenderia. Nordestinos e autores dos estados centrais se identificam com os núcleos da cultura brasileira mais do que nós, que temos valores típicos e mais pendentes para o Sul do que para o Norte. Se lês as obras de Mario Arregui, Paco Espínola, Juan José Morosoli ou Javier de Viana, tens a impressão de que eles estão escrevendo sobre nós.
A identidade fronteiriça, sobretudo o léxico gaúcho, é recorrente na sua obra, como se vê no conto Dois guaxos. O projeto Quadrante quer valorizar essas narrativas regionais, como foi a adaptação de A pedra do reino, de Ariano Suassuna, retrato da cultura nordestina, naturalmente depositária de uma força alegórica maior do que a nossa. Por outro lado, o conto Dançar tango em Porto Alegre é uma narrativa urbana e assume uma temática mais universal. O senhor prevê que rumo tomará essa adaptação?
Dançar tango em Porto Alegre é uma história que podia acontecer em qualquer lugar, decerto, mas o trânsito dos protagonistas em nossa geografia remete aos tempos áureos do transporte ferroviário no Rio Grande, quando Santa Maria era como um centro do mundo que se irradiava pelos trilhos. Não havia estradas pavimentadas, o transporte rodoviário era uma aventura e o trem integrava todas as regiões do estado. Ele foi o símbolo de uma época aqui no Sul. Se o diretor da microssérie vai enfatizar este ou outros aspectos do conto, não tenho condições de saber. Por algum motivo bastante ele o escolheu.
O nome das localidades da fronteira, detalhes da natureza, a influência do castelhano na riqueza do vocabulário campeiro está presente na sua obra. Está tudo guardado na memória ou provêm de um trabalho de pesquisa?
Em alguns momentos, aproveitei o que aprendi em minhas leituras. Em outros, fui obrigado a deslindar le mot juste. No entanto, dificilmente seria bem-sucedido com tais recursos se não tivesse uma base que os instruísse. Descendo de italianos por um lado, mas por outro trago o sangue português, espanhol e indígena, que leva minha ascendência até Rafael Pinto Bandeira. Em Itaqui, na fazenda de meu avô, fui um guri campeiro, e quando na cidade, inúmeras vezes acompanhei minha avó na travessia do Rio Uruguai, de chalana, pois era no Alvear que ela fazia seu rancho. Na mocidade, morei em Uruguaiana e tive estreita convivência com caçadores profissionais, clandestinos, que atuavam nas duas margens do rio, donde provêm alguns contos, e até certa experiência com o contrabando, donde provêm outros. Em Libres, comprava cachmeres, perfume Lancaster, uísque, cigarro norte-americano, produtos que eram revendidos em Alegrete por um garçom do Clube Cassino, o Germano. Com raras exceções, todas as localidades mencionadas eu conheci quando menino ou moço. Hoje não conseguiria escrever aqueles contos. Há mais de 40 anos vivo em Porto Alegre e já não tenho ligações com a campanha, nem mesmo afetivas. A campanha agora é muito diferente daquela que lembro. Sob dados aspectos, mais civilizada. Sob outros, menos do que o era nos anos 50.
A leitura de algumas de suas narrativas emociona e mesmo naquelas em que o humor se sobressai, há sempre um tanto de nó na garganta e aperto no peito. Da observação de sua própria criação – de seus personagens – o senhor se considera um homem otimista ou pessimista?
No período em que mais me dediquei à ficção, aproximadamente entre 1970 e os primeiros anos 90, eu acreditava numa sólida reserva de dignidade na alma dos homens, um núcleo original de que todos seriam dotados, mesmo aqueles cujos atos poderiam ser considerados socialmente despiciendos. Esta última instância significava para mim uma garantia de que, um dia, a vida social poderia melhorar. Já não tenho a mesma fé. A dignidade desceu muitos graus na escala dos valores humanos.
Os anos na Rússia foram anos para escapar das velhas raízes ou se aproximar delas?
Na época em que fui para Moscou, não escrevia contos. Comecei a escrever na volta. Uma temporada em lugar tão distante, tão distinto, com experiências tão intensas, se ampliou e aprofundou minha cosmovisão, fez também com que percebesse que, nutrido de tal substrato, entenderia melhor minha origem, e então passei a escrever sobre o que conhecia. Gauguin foi para o Taiti em busca de sua arte, eu fui para a fronteira.
A TV Globo adaptou nos anos 80 Morte e vida Severina, de João Cabral de Mello Neto. Mais recentemente, Os Maias, de Eça de Queiroz. Agora o projeto Quadrante, enquanto se locupleta do funk carioca e da audiência de grupos musicais como Calypso. Nossa tevê é esquizofrênica?
Raramente vejo televisão, exceto nos canais de filmes. A tevê aberta, ainda que seu sinal seja uma concessão, é um negócio como qualquer outro, e então as emissoras vendem aquilo que o público quer comprar. Geralmente, bons programas têm menor índice de audiência do que os maus, e por isso são escassos. Não se pode exigir da tevê que exerça um papel educativo. Ela é um agente comercial, não cultural. Antes de se exigir que a tevê mude, é preciso que mude o telespectador.
Alegrete ainda rende boas histórias?
Para mim, penso que não. Na minha coluna em Zero Hora, escrevi diversas crônicas sobre a cidade, mas considero a crônica um gênero menos sério, menos literário, dir-se-ia o tempero mais palatável da subliteratura. É um gênero sem permanência. Se um dia voltar a escrever contos, dificilmente irei buscá-los em lugar que hoje em dia quase não conheço. Devo à nossa campanha e à fronteira o melhor de minha ficção, mas essa fonte, na minha capacidade de criar, já se esgotou. Por certo, essa capitis diminutio do escritor não afeta seu apreço à cidade onde nasceu, que é tão intenso quanto sempre foi.