Por que Internet, banda larga por qu.[1]

 

Luiz Ernesto Cabral Pellanda

SPPA

 

Acompanho esta revoluo que vem acontecendo com a humanidade, sem que ela mesma perceba claramente, graas a um insight de que tampouco eu avaliei o alcance, mas que me levou a planejar em 1978 e a efetivar  no ano seguinte a compra de um computador pessoal por ocasio do Congresso da IPA em Nova York e a fundar um clube de usurios que existe at hoje. Ao longo destes anos todos, foi nele que encontrei exemplos de solidariedade no competitiva do tipo que Humberto Maturana afirma ser caracterstica do legitimamente humano e que nos separa dos chipanzs e demais smios. Graas a isto vejo-me acompanhando de perto este novo Renascimento que agora no se limita a Florena ou a Itlia, mas floresce no mundo inteiro de forma simultnea.

 

Pierre Lvy em sua World Philosophie diz:

        O mundo que se edifica hoje em dia no perfeito, no sentido de que no corresponde a nenhuma idia pr-concebida. No nem assegurador nem protetor. Surpreendentemente, vive permanentemente no limite do caos e da desorganizao, mas exatamente nessa fronteira entre a ordem e o caos que se situa a inveno e a energia espiritual mximas. E, logo adiante:

        Mas a unidade da humanidade est hoje acontecendo. Depois de tantos esforos, eis que enfim ocorre a unificao da humanidade de um modo jamais sequer pensado: no se trata de um imprio, no uma religio que a todos conquista, uma ideologia, uma raa pretensamente superior, uma ditadura qualquer, so imagens, as canes, o comrcio, o dinheiro, a cincia, a tecnologia, as viagens, as mesclas, a Internet, um processo coletivo e multiforme que se espraia por toda parte. [...] Tento discernir a unidade desta corrente que nos porta e dar um nome a esse processo: a expanso da conscincia (Pierre Lvy, 2000)

 

 

 Tenho repetido em meus textos que a cincia uma s, que as divises ocorrem por necessidades prticas de delimitar campos de atividade, mas que tem por conseqncia  limitar simultaneamente o pensamento do pesquisador. Estes novos paradigmas que agora vivemos retomam essa unidade do saber, em que vemos psicanalistas estudando fsica quntica e convivendo com o princpio da incerteza que nos remete a Bion e ao incognoscvel que tende para O; em que vemos bilogos como Maturana postulando natureza da vida mental e propondo novas abordagens para a psicoterapia (1996). Este autor vai mais adiante e mostra a inseparabilidade do ser e seu meio, criando o conceito de autopoiese. Em muitos sentidos h uma retomada do Freud impossvel do Projeto, agora com conhecimentos de fisiologia inexistentes ento, em que se reafirma a genialidade de muitas percepes de nosso fundador, como por exemplo de que o Ego antes de tudo corporal: as neurocincias vem mostrando na atualidade como o processo psicanaltico modifica o crebro, criando novas sinpses, alterando a estrutura proteica da rede neuronal (Vaughan, S. 1997).  Com isto penso que agora podemos levar adiante a questo proposta por Strachey em 1934, quanto natureza da ao teraputica da psicanlise e concluir que ela decorre exatamente dessa reorganizao da rede neuronal que d o suporte para o que chamamos de mente, por consequncia da metacognio que decorre do processo de pensar o pensamento. Como observa Maturana, muda a estrutura de forma congruente com o meio e se mantm a continuidade funcional.

A Internet libera o saber para uso de todos, rompendo os feudos dos que se pretendem donos da cincia e das prticas decorrentes. Assim como o tipo mvel de Gutenberg instrumentou a disseminao dos saberes da Idade Mdia e propiciou o Renascimento, a Internet agora instrumenta a mudana de paradigma e a disseminao das fontes de informao que geram o que Pierre Lvy chama de inteligncia coletiva da humanidade, essa noosfera antevista por Teilhard de Chardin. Partilho de seu otimismo em relao humanidade, tambm reafirmado por Humberto Maturana quando diz que viver fcil e que o ser  humano se caracteriza por ser neotnico, isto , dependente do amor por toda sua vida, mas reconheo que estamos falando em termos estatsticos, com Heisenberg, e que alguns indivduos em particular so desviantes desse padro, de onde o sofrimento e a doena.

Dentro dessa globalizao seria demasiada onipotncia pretender manter o monoplio da psicanlise apenas porque nossa IPA foi fundada por inspirao Freud e nossa formao mais rigorosa (por que parmetros, mesmo?) do que as demais que se dizem psicanalticas. Muitos dos que fizeram suas formaes dentro de nossas sociedades hoje militam em outras entidades e os conflitos seguem se alastrando e fazendo baixas. Atitudes simplistas de afirmar que so colegas mal analisados ou que necessitam re-anlise no mudam em nada os fatos.

E a Internet, onde entra nisto tudo? Justamente como instrumento de construo de conhecimento que globaliza sem preconceitos, onde todos podem fazer parte de uma comunidade de comunicao que j est sendo explorada por outros mais atentos: vrios de ns receberam notcia de estatsticas de acesso ao site de uma outra entidade que tambm, como ns, se intitula psicanaltica, com nmeros expressivos de hits no ms de agosto deste ano: total de acessos: 128.737, mdia por hora: 17, mximo em um dia: 6.202.

E ns, nossa ABP? Ainda estamos discutindo. Nossos membros pouco usam a comunicao por correio eletrnico, muitos sequer conferem sua caixa postal ao menos uma vez por dia, no falando daqueles que se recusam a t-la. Dados os altos custos de nos mantermos psicanalistas, a Internet opo muito econmica para buscar a formao continuada de que necessitamos, bastando possuir o critrio para saber separar o joio do trigo nesse mundo infinito da www e nisto pretendemos auxiliar por via de um portal de servios, em fase de organizao, que fornecer subsdios para as discusses cientficas e espao para que possamos trocar experincias, como centenas de grupos atuantes o fazem pela rede todos os dias.

Computador feito para estar ligado vinte e quatro horas, como a geladeira ou relgio, por exemplo, (se o monitor est escuro como o deixam certos salva-telas, o consumo de energia eltrica absolutamente desprezvel, da ordem de centavos por ms), e deve ser mantido conectado Internet via banda larga, isto , aquela que permite a passagem de grande quantidade de dados por unidade de tempo e que independe de discar o telefone a cada vez que se deseja checar e-mail ou navegar (e ainda: no paga minuto conectado, mas uma taxa geral por ms que resulta muito mais barata do que a tradicional). Nessas condies ele estar sempre pronta para acolher uma idia que ocorre, como o velho bloco que deixvamos ao lado da cama para anotar os sonhos. Foi bem isso que me aconteceu hoje quando s quatro acordei com a idia deste texto e s cinco voltei a dormir com a conscincia tranqila de que no o perderia para o recalcamento...  Minha velha tia Morena, que faleceu aos 95 anos de idade, no se conformava de ver acesa a luzinha do freezer, queria desliga-la para poupar luz -- quantos de ns estamos ainda atados a preconceitos semelhantes? Minha experincia pessoal de que a conta do telefone diminuiu de 400 para 100 reais depois do Turbo que a marca comercial da ligao ADSL por aqui. Mas de qualquer modo que se chame a opo que deve ser preferida por todos os que desejam entrar a srio nessa aventura do conhecimento que navegar pela rede.

Precisamos oferecer servios dignos de nossas pretenes cientficas a nossos clientes, sejam eles os psicanalistas que buscam apoio na ABP (e os h por todo este interior imenso do Brasil) ou sejam os potenciais clientes de nossos divs que temos a obrigao de orientar bem para que saibam reconhecer um Psicanalista com P maisculo, distinguindo-o das aves de arribao que proliferam por ai.  Para comear por ns mesmos, faamos uma campanha por generalizar entre ns o uso deste instrumento j indispensvel que a Internet e em banda larga, por favor!

 

Bibliografia:

Lvy, P. (2000) World Philosophie, Editions Odile Jacob, Paris.

Maturana, H. (1996a) Biologia e Psicanlise: o amor como interface. In: Pellanda, N. & Pellanda L. E. Psicanlise Hoje: Uma Revoluo do Olhar. Ed. Vozes, Petrpolis.

Vaughan, S. (1997) A Cura pela Fala . Traduo de The Talking Cure - The Science behind Psychotherapy por T.B. Santos. Objetiva, Rio, 1998.



[1] Este texto esteve publicado na pagina da SBP (http://www.abp.org.br) durante mais de seis meses em 2002.