ASPECTOS GERAIS DA COLONIZAÇÃO ITALIANA NO RIO GRANDE DO SUL

 

ERNESTO PELLANDA

IN

Álbum Comemorativo do 75º Aniversário da Colonização Italiana no R.G. do Sul (pg. 34 - 64)

 

NOTA: Conservou-se a grafia da época, na medida do possível. Solicita-se comunicação de eventuais erros remanescentes. Para manter o tamanho em 175 K, optou-se por deixar as figuras em outro arquivo.


ÍNDICE

I A terra e o povoamento anterior

II Hic sunt Barbari

III O contrato Caetano Pinto e a imigração italiana

IV Vênetos e lombardos na Europa e no Rio Grande

V O regime de colonização do Rio Grande

VI Os primeiros núcleos coloniais povoados de italianos

VII Vinho, pão e produtos suínos

VIII Colonos industriosos e ativos

IX Aspectos culturais da colonização

X Per finire


FIG.1 Aspecto da região colonial italiana poucos anos depois de ocupada pelos agricultores.


I. A TERRA E O POVOAMENTO ANTERIOR

 

Não se fez ainda do Rio Grande do Sul, ao que saibamos, o estereorama exato indispensável a um conhecimento mais objetivo e generalizado do relevo e da natureza do solo, o que faz com que até nos compêndios e mapas corram falsas noções de sua fiisiografia. Uma delas é a da continuidade em nosso território da Serra do Mar, equívoco que, apesar de indesculpável, pois já em 1819 o Visconde de São Leopoldo o corrigia, continua até hoje repetido. Dizia então o nosso primeiro historiador que o Continente era dividido em duas partes quase iguais "pela Serra Geral do Brasil que, acompanhando a costa nas primeiras vinte e sete léguas desde o Araranguá (limites da época), até a latitude austral de 29ű 41', pouco mais ou menos, volta a oeste mais de oitenta léguas".

 

A Serra do Mar, realmente, afunda-se no oceano na altura de Santa Marta, no vizinho Estado. Dela só nos restam como amostra os montículos das Torres. Uma de suas antigas ramificações, cujo elo desapareceu em época geológica recuada, é que surge, muito para o interior do continente, na Coxilha das Lombas, em Viamão, percorre o município da capital, fende-se amplamente para deixar passar o Guaiba e continua para o sul, formando o Escudo Rio-grandense, conjunto de serranias graníticas de pequeno vulto que vão ao encontro da Coxilha Grande de um lado (Herval, Encruzilhada, Caçapava, Itababeraquá) e da República Oriental, de outro (Tapes, Santo Antônio, etc.).

 

Na faixa litorânea são as praias rasas, os albardões e os cômoros que por duzentos anos vedaram a aproximação da costa. A barra, "invisível do mar", incerta até poucos anos, era mais um obstáculo que fator favorável à entrada portuguesa.

 

Não admira assim ao estudante do nosso passado que as primeiras explorações do território viessem aqui ter por terra. Desde as bandeiras de Manoel Preto (l600) e de Rapôso Tavares (l631) que se sabia que a terra era generosa e fértil. De ponto mais ao sul, em 1669, dera noticia de riqueza de suas vacarias, Matias de Mendonça, que estivera em Maldonado. Demais, fundadas em 1680, Laguna e a Colônia do Sacramento, esta nas margens do Prata, urgia a Portugal ocupar o espaço intermediário. De Laguna, último pôsto avançado da gente de Piratininga, viria, de ordem de Francisco de Távora, a patrulha exploradora dos Brito Peixoto (l7l5) e, com ânimo definitivo, a frota de João de Magalhães (l725). De São Paulo mandaria o Governador Rodrigo César de Meneses abrir a estrada que, por Curitiba, descia o vale do Araranguá, acabada por Cristóvão de Abreu Pereira em 1722 e pela qual viria ao local do Rio Grande de São Pedro o Tte. Gal. David Marques Pereira para estudar a viabilidade de ali "se fazer povoação". Era isso em 1727, já ocupada portanto por João Magalhães a terra entre o Guaíba e o mar. Mas o Tte. Gal. queria ir além e do pôsto em que se achava, contratou com os capitães Estácio Pires e João da Costa a prática das primeiras "razias" oficiais no "Pampa de Vacaria".

 

Quando, afinal, em 19 de fevereiro de 1737, aporta Silva Pais à Barra para a fundação de um "presídio", já ali encontrou à sua espera, a mando do Conde de Sarzedas, Governador da Paulicéia, o árdego sertanista português que abrira as duas estradas de então, para São Paulo -- a da Costa do Mar e a da Serra Velha -- aquele mesmo Coronel Cristóvão de Abreu Pereira, à frente de 160 cavalarianos em 4 companhias comandadas pelos capitães Francisco Pinto, João de Mendonça, José de Melo e Nuno Álvares Pereira, tenentes Francisco Manoel de Souza, Valério de Mendonça, Manoel Tavares, Francisco Tavares e alferes Anselmo Gonçalves, Manoel Pinto, Antônio Gonçalves e Manoel Pinto Bandeira, dos quais proviriam os primeiros campeadores gaúchos.

 

Fixado o domínio militar da península do sul, mais necessária se fez a posse do hinterland. Para isso dizia Silva Pais em carta de 12 de abril: "O ponto é criar gente de cavalo que saiba fazer o serviço como cá se costuma". E aos patriotas de Cristóvão Pereira juntou 37 cavalarianos que trouxera na esquadra, criando o núcleo do primeiro regimento de dragões que viemos a possuir. Para êle mandou-lhe Gomes Freire 38 dragões de Minas Gerais e 56 homens do Rio de Janeiro "capazes de se exercitarem na cavalaria", ordenando ainda que se tirassem mais 70 praças do destacamento da Bahia e de Pernambuco para aquele fim. Queixava-se, porém, Silva Pais que os cavalos que havia reunido Cristóvão Pereira não bastavam, "sem que por agora nos possamos valer dos potros, que êsses são redomões e é preciso primeiro amansá-los e muito mais para os nossos soldados não costumados a montar, por cuja razão estão caindo sempre que o fazem e as selas e arreios se fazem em pedaços". "Baianos" ...

 

Criou a estância real do Bojuru e entregou-a a Cosme da Silveira, português povoador de Viamão, para remediar as faltas de montarias e ali, em junho de 1738, já existiam 1500 éguas e 2500 vacas, além de 8000 outras já arrebanhadas com aquêle destino. Sucedendo-lhe no comando do presídio André Ribeiro Coutinho, despediu a Cosme, mas continuou a "habilitar gente ao serviço daquelas campanhas que é só o meio de as conservar e de adquirir maior extensão". Do Rio envia-lhe então Gomes Freire 67 pessoas de casais refugiados de Colônia para ínício do povoamento. Silva Pais, ao substituir o futuro Conde de Bobadela no govêrno do Rio, remete voluntários para os dragões, 4 ou 5 casais - e várias mazuellas, "mulheres desimpedidas que aqui poderiam tomar estado e lá tinham a de desenvoltas". Vem depois, a partir de 1752, a imigração açoriana que se fixou às margens do São Gonçalo e dos principais formadores do Guaíba, alcançando, para os lados da campanha, Rio Pardo; ao centro Taquari e ao sul, Piratini. De Triunfo se espalhariam pelo Caí atingindo suas estâncias as terras do Pareci e do Bonfim.

 

Em 1803 a população total do Rio Grande do Sul, inclusive 8000 índios das Missões, se elevava a 59.142, dos quais 3.927 habitantes de Pôrto Alegre. Em 1822 calculava-se a população da Província em 106.000 habitantes. Pôrto Alegre fôra elevada à categoria de cidade; eram vilas: Rio Grande, Rio Pardo, Santo Antônio da Patrulha e Cachoeira, e pequenas freguesias criadas: as de Vacaria, Aldeia dos Anjos, Triunfo, Taquari, Encruzilhada, Santo Amaro, Mostardas, Estreito, Piratini, Canguçu e Pelotas. O território estava, porém, integrado nos seus limites atuais, as raias meridionais e do poente definitivamente traçadas, graças àqueles dragões de São Pedro, de fundo paulista, carioca e mineiro, depois transferidos para Rio Pardo, de onde sairiam os conquistadores das Missões e os dominadores das coxilhas.

 

Ao Norte ficava a região de Cima da Serra, e os campos de Vacaria, isto é, o Planalto que, dos Aparados, a mais de 1.000 metros de altitude, desce gradualmente para oeste, até quase beirar as margens do Uruguai. Um degrau ora abrupto, ora em quebrados sucessivos, a "Serra Geral", termina aqui o altiplano brasileiro cortando de leste a oeste o nosso território. Largas fraturas deixam fluir os rios que vêm ter ao Guaíba. Os contrafortes da Serra cobriam-se de mata virgem, só em dois pontos transposta até meados do século passado. Em São Martinho, porta do Território das Missões e na "estrada" que de Viamão demandava Sorocaba pelo vale do Rolante e atual município de S. Francisco de Paula, cortando o Tainhas, o Camisas e o Antas para atingir a "Guarda de Santa Vitória" no Pelotas, junto à embocadura do Touros.

 

De 1824 em diante, com a colonização alemã, começaria a ocupação da mata dos primeiros contrafortes da Serra. Após o térmo da Revolução Parroupilha, reiniciada a imigração germânica que estivera interrompida desde 1830, as suas levas se foram aproximando das encostas do imenso degrau: pela Feliz (l846), Santa Cruz (l849), Estrêla e Lajeado (l853), Maratá (l856), Santo Ângelo (Cachoeira) (1858), Monte Alverne (1861), Candelária (l863), Arroio do Meio (l869) e Cerro Branco (l875). Assim, o grande arco formado pelo antemural da Serra e que vai do Itacolomi às margens do Alto Jacuí, fui sendo paulatinamente ocupado. Povoaram-se os vales do Cadeia, do Caí, do Taquari, do Rio Pardo e do Pardinho e de seus tributários. E as ricas matas de madeira de lei que os séculos haviam criado, cediam lugar à lavoura semeada entre os troncos que o fogo não consumira. Em consequência do avanço da colonização, já em 1846 pensava-se porém numa estrada mais curta para o Nordeste. Nesse ano foi incumbido o Alferes David Pereira Dias de abrir uma picada de ensaio da "Linha dos Alemães" até os Campos da Vacaria, encurtando de 30 a 40 léguas o caminho. No ano seguinte abria-se uma estrada do Mundo Novo à Serra. Em 1848 contrata-se outra de Rio Pardo à Cruz Alta e projeta-se melhorar a picada de Santo Antônio para Cima da Serra pela "Serra Velha".

O povoamento progredira. O recenseamento de 1872 viria a encontrar na Província 446.962 habitantes, dos quais 30.583 em Pôrto Alegre. Do total geral efetivamente apurado nas listas devolvidas se verificara porém a população de somente 430.878 indivíduos, dos quais eram brasileiros 389.472 e 41.406 estrangeiros. Partindo desses dados pode-se bem afirmar que cêrca de 5/6 da população se radicavam na Depressão Central, no Litoral e na Campanha e em menor número em Cima da Serra, e 1/6 nas colônias germânicas. Contava a Província 28 municípios subdivididos em 73 paróquias. Destas, afora as da capital, eram mais populosas a de Pelotas, com 21.756 habitantes, Rio Grande com 16.883, Bagé com 15.037, São Gabriel com 13.872, Cachoeira com 11.899, Rio Pardo com 11.571 e Livramento com 10.233.

 

No atual Planalto do Nordeste, as paróquias de Vacaria, São Francisco de Paula e Lagoa Vermelha, contavam, respectivamente, 5.755, 5.360 e 4.744 habitantes. Soledade, Passo Fundo e Cruz Alta ocupavam os campos do Planalto Médio, contando, respectivamente, 9.177, 8.368 e 8.402 almas.

 

Esta enumeração que parecerá ao leitor ociosa, pretende apenas demonstrar que a população oriunda de paulistas e açorianos, os primeiros povoadores do "Continente D'EI Rei", aprendera as lições dos cavalarianos de Cristóvão Pereira e de Silva Pais e realizara, em campo limpo, as previsões de Ribeiro Coutinho: adquirira em pouco mais de 60 anos (até 1801) e conservava firmemente em seu poder, "a maior extensão daquelas campanhas" dominadas a pata de cavalo. Os alemães, e em pequeno número outros imigrantes, se iriam fixando mais tarde, de preferência nas matas da encosta da Serra Geral, de um lado, e nas da Serra dos Tapes, de outro. Marcavam-se assím duas zonas perfeitamente diferenciadas à expansão das duas indústrias básicas do Rio Grande: a agricultura e a pecuária.

 

II. HIC SUNT BARBARI

 

 

À semelhança dos velhos mapas da África, a carta do Rio Grande da época assinalava não o "Hic sunt leonis" da legenda, mas extensas áreas de matas em que se poderia escrever "Hic sunt barbari". Eram os pinheirais nativos que, no outono, alimentavam as tribos indígenas com seu fruto, por isso mesmo disputadissimo.

 

Pelos altos vales dos rios, desde as bordas do planalto até além do Rio das Antas na região entre o Caí e seus formadores e o Alto Taquari, tal como nos matos "Castelhano" -"Português" no planalto médio e mais além no vale do Uruguai e do Pelotas, dominavam as copas da araucária e, entre elas, alguns campestres semeavam ilhas dispersas no oceano verde-negro da floresta.

 

Eram terras devolutas. O temor dos índios e das feras mantinha afastada dali a população continentina interessada apenas nos campos de criação.

 

A colonização alemã, por sua vez, parara junto às fontes do Caí-Santa Cruz e seus tributários, do Pinhal, do Farromeco e do Maratá; e se subira o primeiro contraforte da serra em Nova Petrópolis e na Feliz, em Santa Maria da Soledade e no Maratá, fugiria de escalar o muro áspero que defrontavam os seus últimos lotes, indo espalhar-se pelo Taquari e pelo Rio Pardo.

Em 1869/70, o Govêrno da Província querendo continuar a colonização, embora as dificuldades que lhe opunham os Estados da Alemanha e supondo preenchidos pelas colônias de Santa Cruz, Santo Ângelo (Cachoeira), Nova Petrópolis e Monte Alverne as 36 léguas quadradas das terras que lhe doara em 1848 o Govêrno Geral para colonizar, pedia a êste que lhe concedesse, nas terras devolutas do planalto, dois territórios de quatro léguas em quadro ou sejam 32 léguas quadradas. Deferida a solicitação, mandou-os a Província discriminar e dividir em lotes, gastando nesse trabalho a soma, em moeda da época, de 69:450$768. A concessão não fôra porém gratuita; exigia o Govêrno Geral o preço de l real por braça quadrada medida e, mal iniciado o povoamento, teve a Província, exausta de recursos, que devolver tudo ao Império, pois só o custo da terra se elevaria dessa forma a 288:000$000, ou seja 1/6 da sua receita geral.

 

Mas não foi só êsse o seu prejuízo. Enquanto se providenciava na medição, por ato de 24 de maio de 1870, o Presidente Dr. João Sertório criava nos territórios em aprêço as Colônias "Conde D'Eu" e "D, Isabel" e o Presidente Conselheiro Francisco Xavier Pinto Lima, a 29 de abril de 1871, assinava a Lei número 749 autorizando o executivo a firmar contrato com Caetano Pinto & Irmão e Holtzweissig & Cia. para a "introdução de 40.000 colonos industriosos, jornaleiros e principalmente agricultores, no prazo de 10 anos".

 


Fig. 2 Paisagem típica da zona colonial italiana, onde o aproveitamento da terra para as lavouras é levado ao máximo possível.


 

Devolvidas as terras, viu-se também a Província obrigada a rescindir, logo depois, o contrato, cujas principais cláusulas, aliás, jamais haviam sido cumpridas pelos concessionários, pois que um dos motivos de suas dificuldades estava na concorrência do próprio Govêrno Imperial que, no contrato que fizera com Mackai Son & Co. e Guilherme Hasfield, de Londres, se comprometia a pagar mais que êles, por imigrante adulto (Rs. 70$000).

Realmente estipulava a lei condições a que os contratantes nunca puderam atender, entre elas: - A da introdução anual de 2.000 colonos no mínimo e 6.000 no máximo e a de não exceder de 10 % das levas o número de não agricultores.

Além disso assumia a Província, nesse passo, com a empresa, compromisso superior às suas fôrças: Propunha-se pagar aos contratantes 60$000 réis por indivíduo maior de 10 anos e 25$000 pelos de l e 10, valores que representavam a diferença entre os preços das passagens da Europa para o Brasil e para os Estados-Unidos. Os empresários deveriam empregar essa soma na equiparação dos preços das passagens para os imigrantes.

 

O pagamento lhes era porém feito 1/3 em títulos da dívida provincial, ao juro de 7% ao apresentarem as listas dos imigrantes embarcados na Europa; 1/3 nas mesmas condições ao serem entregues no pôrto de desembarque (Rio Grande) e o têrço restante em dinheiro, também nesse ato.

 

Ficara a cargo da Província ainda a recepção e hospedagem dos colonos no pôrto de Rio Grande, transporte e alimentação até a capital e daqui até a colônia provincial a que se destinassem. (Ficando em Pôrto Alegre, só tinham direito a acomodações e alimentos por 5 dias).

 

Poucos eram os que de início aceitavam o destino das colônias novas e desertas: preferiam seguir para as particulares que então floresciam, ou ficar nas antigas. É certo que a lei previa nesses casos a indenização dos gastos feitos. Como, porém, cobrá-los?

 

Mas, voltando ao território cedido, cujo perímetro medira o Major José Maria da Fontoura Palmeiro: Situava-se a ambos os lados do pique que do Maratá seguia para o Rio das Antas. Conde D'Eu situava-se à esquerda do caminho, confinando ao norte e a leste com aquêle rio e ao sul com terras devolutas. Dona Isabel, colocada à direita da "estrada", tinha ao norte o rio e ao sul terras que permaneciam virgens, cedidas pelo Govêrno Imperial a Inácio José de Moura, Luiz Antônio Feijo Júnior e a um cidadão Machado, e a leste terras devolutas.

 

O que era essa "estrada" limitante dos dois núcleos, di-lo o relatório de 1873 do agente intérprete da colonização, o "inteligente Sr. Luiz Kraemer Walter", segundo expressão oficial da época, e que passamos a resumir:

 

"Uma das mais palpitantes necessidades para essa colônia (Conde D'Eu), a limpeza daquela parte da estrada do Maratá que fica aquém do Rio das Antas, foi devidamente considerada pelo Conselheiro Figueiro de Melo que mandou contratar com o capitão João Jacinto Ferreira êsse importante serviço, que acaba de ser concluído." "Além da limpeza da estrada, carece também tratar-se de melhorar alguns pontos dela que oferecem perigo à passagem dos cargueiros."

"Medeando entre a colônia Conde D'Eu e o último ponto habitado da colônia particular do Maratá, uma distância de quase cinco léguas de terras devolutas, por onde atravessa a estrada para cargueiros, de cuja limpeza falei, é óbvio que o principal impedimento para a sua prosperidade está no abandono em que os proprietários deixam aquelas terras intermediárias, abandono que tanto contribui para que aquela estrada, por mais que se conserte, nunca possa considerar-se franca, porque quando as chuvas não destruírem o trabalho feito, temos a floresta de ambos os lados de uma estrada de poucos pés de largura, que não deixa penetrar os raios de sol nem as lufadas do minuano, êsses outros inspetores de nossas estradas do interior que tão bons serviços soem prestar.

"Torno a repetir, concluía, que nada se poderá esperar da colônia Conde D'Eu sem uma estrada de rodagem, que lhe dê comunicação com os pontos habitados da Colônia do Maratá."

 

Quanto ao outro núcleo, escrevia: "Nada direi aqui da colônia D. Isabel por estar ainda inteiramente desocupada e apenas com o perímetro medido."

 

Na mesma época tentava-se uma outra saída para o Conde D'Eu: uma estrada que a ligasse à margem direita do Taquari. Pediu a Província auxílio do Govêrno Geral para tanto, mas, em aviso de 17 de dezembro de 1872, dizia o Ministro da Agricultura que nada podia dar sem um orçamento prévio e os trabalhos técnicos indispensáveis.

 

 

III. O CONTRATO CAETANO PINTO E A IMIGRAÇÃO ITALIANA

 

Vimos as esperanças fundadas pelos governds provinciais no maior contrato de introdução de imigrantes que já se fizera no Rio Grande do Sul com particulares: Caetano Pinto & Irmão e Holtzweissig & Cia.

 

A Alemanha impunha então à imigração obstáculos formais. Em 1870, pouco antes, portanto, só haviam aportado ao Rio Grande 471 imigrantes, todos espontâneos. Por essa modalidade de imigração, batia-se aliás o agente intérprete Lothar de La Rue, cidadão culto e dedicado aos interesses do país, que foi quem sugeriu que se pagasse aos mesmos a diferença do preço da passagem para os EstadosUnidos, como meio de atraí-los para nós. Em 1871, totalizaram 477 os colonos entrados.

 

Mas, firmado o contrato Caetano Pinto a 31 de janeiro de 1872, o mínimo nele previsto já se não verificaria no primeiro ano. Aumentou, sim, o número de entradas, mas não foi além de 1.354.

 

O célebre contrato estava sendo um fracasso. Já no primeiro ano de vigência, quando aparentemente tivera melhor êxito que os simples esforços oficiais, reclamava Luiz Kraemer Walter o fato de ao lado de 1.049 alemães, terem vindo 100 portugueses com apenas 6 mulheres, sendo na quase totalidade solteiros ou casados sem família. Ficaram todos no Rio Grande e a propósito acrescenta o agente intérprete: - "Já reclamei a Vossa Excelência que não entendia de ser êsse o sentido do contrato celebrado com aquêles senhores, pois que nêle se especializava a introdução por famílias, prevendo em proporção ao número delas vir um solteiro para cada uma". E concluía: "homens solteiros creio que recebemos sempre na Província, vindos de Portugal, sem estipêndio do govêrno e será sempre improdutiva semelhante despesa".

 

Em 1873 os empresários introduziram 1.607 imigrantes, vindo ainda 259 por conta do Govêrno Geral para a colônia de Santa Maria de Soledade.

Da relação oficial consta terem entrado 892 alemães, 643 austríacos, 174 franceses, 101 portugueses, 36 suíços, 10 belgas e 10 suecos.

 

Comentando o assunto, o presidente Carvalho de Morais, depois de dizer à Assembléia que os contratantes conseguiram introduzir mais 512 imigrantes que no ano anterior, acrescentava: "Entretanto continuam a lhes ser opostos na Alemanha os mesmos embaraços que tem contrariado os seus esforços. Infelizmente, igual espírito de oposição manifestam os governos de outros países da Europa e assim acontece que a imigração para o Brasil encontra maiores obstáculos à medida que se tornam mais conhecidas a prosperidade crescente do Império e as suas condições favoráveis para o estabelecimento dos imigrantes europeus". Afirma que isso acontece em virtude do antagonismo de interesses entre o nosso país e os da Europa, e acrescenta:

 

"É porém convicção minha que dessa luta pacífica, mas porfiada, devemos sair vencedores, como sairam os Estados-Unidos da que sustentaram, desde que dermos boa direção aos nossos esforços e a mantivermos com perseverança".

 

Em 1874, a quota de imigrantes fornecida baixou para 580 (os restantes entrados vieram por conta do Govêrno Geral para Santa Maria da Soledade), descendo, ainda, como vimos, no ano seguinte para 315. Em tôdas as levas, até aí, predominaram os alemães, austríacos e franceses. Não se falava absolutamente em italianos.

 

Não é sem surprêsa assim que lemos na "Fala" do presidente Dr. José Antônio de Azevedo Castro à Assembléia, na abertura da segunda seção da 16ª legislatura (l876), a seguinte resenha de entradas na Província, de 1859 a 1875, que afirma tirada dos registros da repartição especial de terras públicas:

Imigrantes entrados de 1859 a 1875

Nacionalidades:

Número:

Alemães

8.412

Austríacos

1.452

Italianos

729

Franceses

648

Sulços

263

Outras

1.050

TOTAL

12.563

 Êsse número deve corresponder apenas aos vindos por conta da Província ou estará errado para menos em 1.096 imigrantes cujas entradas constam das cuidadosas pesquisas que realizamos para "Colonização Germânica no Rio Grande do Sul".

O milagre porém está ali naquele número de italianos que, quase diríamos, entrou de contrabando... O mais provável é que tenham figurado como austríacos nas relações de imigrantes.

Há, aliás, nos documentos oficiais da época silêncios e hiatos inexplicáveis em assunto da maior importância. Assim só indiretamente ficamos sabendo que entre 1875 e 1876 passaram as colônias D. Isabel e Conde D'Eu para o domínio do Govêrno Geral.

 

De fato, tratando o agente intérprete em seu relatório de 1876 da Colônia Monte Alverne, tem lá esta passagem: "O Ministério da Agricultura por aviso nº 56 de 27 de outubro do ano passado anuiu ao pedido que em data de 18 de julho passado dirigi à Presidência para que fôsse a Províncla compensada das 32 léguas de terras que abrangem as colônias de Conde D'Eu e D. Isabel, ora ocupadas por colonos do Estado". Mas, desde quando? Não nos foi possível apurar.

 

Do mesmo modo, só indiretamente se descobre o fato do povoamento do núcleo dos fundos de Nova Palmeira por colonos italianos a partir de 25 de outubro de 1875, data em que parte daquela gleba (68 lotes coloniais) foi anexada à Santa Maria da Soledade.

 

De fato, naquela nossa primeira colônia mista, dividida em quatro distritos, havia então a seguinte população escolar apurada, segundo minudente relatório de Carlos Jansen:

No distrito Silveira: .- 134 crianças descendentes de alemães, e holandeses. Idioma predominante o alemão.

No distrito Montravel: .- 50 descendentes de franceses, suíços e espanhóis. Idioma predominante o francês.

No distrito Coelho: - 99 descendentes de italianos, alemães e suíços. Idioma predominante o alemão.

No distrito de Barcelos: .- 86 descendentes de alemães.

Aos fundos de Nova Palmeira: - 52 filhos de alemães e italianos, com predominância daqueles.

Havia, ao todo, 49 italianos nesse ano naquelas terras que foram depois anexadas a Caxias e hoje pertencem a Farroupilha. A separação desse núcleo de Santa Maria era já aconselhada por Jansen - devia, a seu ver, ser anexado à lª e 2ª léguas do núcleo vizinho, formando uma colônia independente.

A grande imigração italiana viria porém a seguir, em 1876 e 1877, e, após um intervalo de quatro anos fracos, se intensificaria para atingir a máximos impressionantes em 1885, quando alcançou a 7.600 entradas, em 1889 quando se elevou a 9.440 e em 1892 no qual totalizou 7.523.

Verifica-se assim que é possível, embora não esteja provado, que o contrato Caetano Pinto & Irmão e Holtzweissig & Cia., tenha dado origem à imigração italiana, como se tem afirmado. Mas, fora de dúvida, é que só quando rescindido êle e entregue o trabalho de colonização ao Govêrno Geral é que a corrente se intensificou, alcançando volume antes desconhecido na história da colonização da Província.

Essa passagem de domínío, e atribuições se fêz aliás com prejuízo dos registros da época, tornando obscura a destinação dos colonos entrados e a história dos primeiros anos da colonizacão italiana.

 

Para encaminhar de início os imigrantes às colônias do planalto, sabe-se que contratara o Govêrno Provincial os serviços de José Antônio Rodrigues Rasteiro, o qual, na qualidade de agente da colonização em Montenegro, se encarregava de receber e encaminhar a destino os colonos chegados àquele porto fluvial pelos vapores do governo. Seus vencimentos eram de 600$000 anuais. No Caí (Pôrto dos Guimarães) exercera o mesmo cargo o Tte. Cel. Antônio José da Silva Guimarães, substituido depois por Lourenço Alencastro Guimarães, e no Maratá, por algum tempo, Pedro Schreiner.

 

A imigração, na época, era recebida no Rio Grande por um agente do govêrno, agente que foi por muitos anos Carlos Miller. Dali eram encaminhados a Pôrto Alegre, cuja hospedaria se localizava no edifício que seria depois o quartel da Brigada Militar, no Cristal, a cujo trapiche atracavam diretamente os pequenos barcos de então. Ainda por via fluvial, como vimos, eram os colonos encaminhados a Montenegro de comêço e ao Caí depois, seguindo dali para as colônias, nos primeiros tempos a pé.

 

A repartição de colonização só dispunha de um Inspetor Geral que era o diretor, de um amanuense e um colaborador. Pode-se assim imaginar as dificuldades com que lutava, não só para uma escrituração regular, mas para atender e entender o pessoal das levas imigratórias, determinar-lhes o destino, a que nem sempre obedeciam, e regularizar as dívidas.

 

Em 1878 foi extinto o lugar de inspetor geral e dispensado o agente no Caí, ao mesmo tempo que mandava o governo imperial proceder-se a rigorosa inspeção nas colônias, designando para isso o engenheiro José Tomé Salgado. Teve êste o auxílio dos funcionários provinciais Norberto Vasques e Afonso Hebert, servindo de intérprete Ângelo Giuseppe Baron. O resultado foi uma das derrubadas costumeiras de então. Em Caxias foram exonerados o engenheiro diretor e dois agrimensores, o encarregado do serviço da 3ª légua; em Silveira Martins, a pedido, o chefe da comissão de terras; em Conde D'Eu e D. Isabel os diretores, o engenheiro chefe da comissão de estradas, um agrimensor e dois auxiliares de engenheiros.

Explica-se assim por que entre 1875 e 1889, época em que a Província contou com 33 presidentes em 14 anos, sejam raros e incertos os dados sôbre a imigração e colonização. De 1882 em diante, entretanto, existe apuração da corrente imigratória relativamente exata, podendo-se calcular a entrada de aproximadamer-te 41.500 imigrantes italianos até a proclamação da República. De 1890 a 1914, entraram no Estado mais 32.500 imigrantes italianos, o que nos dá um total de 74.000. A população colonial de ascendência italiana era já então calculada em 250.000 habitantes.

 

IV.VÊNETOS E LOMBARDOS NA EUROPA E NO RIO GRANDE

 

Afirmamos, de uma feita, e houve quem estranhasse, que as três grandes correntes povoadoras do Rio Grande do Sul: açorianos, alemães e italianos da Lombardia e do Vêneto, pertencem originariamente aos mesmos troncos indo-europeus. Dos açorianos parece pacífica hoje a aceitação de sua ascendência flamenga. Dos alemães todos conhecem as raízes. Só dos vênetos e lombardos há entre nós pouco conhecimento histórico. Parece-nos, por isso oportuno, retraçarmos uma breve síntese de suas origens:

Dos vênetos conheceu a antiguidade duas tribos: uma na Gália Céltica que deu muito trabalho a César obrigando-o a acuá-la nos seus pântanos e ilhas para vencer a coligação que chefiava; outra na Gália Cisalpina. Da etnografia desta sabe-se que observava o culto ariano, usava um alfabeto misto de grego e etrusco e era grande comerciante. Durante a segunda guerra púnica sofreram, os vênetos, a dominação romana e em 89 a.C. Gnaeus Pompeius Strabo os colocou sob o jus latinum. Sob Augusto a Venétia constituiu com a Ilíria a 10ª região da Itália, com capital em Aquiléia. Durante os últimos tempos do Império foi devastada pelos bárbaros, tendo muitas das suas cidades destruídas por Átila. O resto é história moderna.

Dos lombardos ou longobardos, sabe-se que era um povo do baixo Elba, do qual deriva a atual Bardengau ao sul de Hamburgo. Aparecem na história no ano V da nossa era quando foram batidos por Tibério. Talvez sob o ímpeto de novas invasões do norte vamos depois encontrá-los em 487 na Baixa Áustria. Em 546 o Imperador Justiniano os convidou a se fixarem na Panônia e a seu lado tomaram parte na batalha dos Apeninos contra os ostrogodos de Tótila, em 553. No ano de 568 deixaram a Panônia aos Avaros e foram fixar-se no norte da Itália, estendendo-se pela Ligúria e chegando até a Toscânia. Sob os Papas Gregório III e Adriano I, temerosos estes do poder que iam tomando na península os lombardos, chamaram, para combatê-los, os francos de Pepino e Carlos Magno que os dominaram, estabelecendo-se após o reino franco-lombardo na região que fizera parte, sob a República, da Gália Transpadana, e constituíra, sob Augusto, com o Piemonte (Piedmont) a 11ª região itálica. Vemos assim que a Itália de além-Pó se compunha de povos celtas e germanicos latinizados. Daí se encontrarem entre os imigrantes pelo menos três tipos étnicos distintos: o mediterrâneo de estatura média ou abaixo da média, moreno, de cabelos escuros lisos ou ondeados, remanescente do Homo Meridionalis; o tipo alpino de procedência celta, estatura acima da média, braquicéfalo, claro, de olhos azuis ou cinzentos, e o tipo dinárico, predominante no Vêneto, longillneo, branquicéfalo, de cabelos castanhos ou brunos. Não muito raro é igualmente o tipo nórdico, embora sejam os seus caracteres todos rescessivos e tendam a se fundir na massa bruna, como acontece com os alemães de Baden e da Baviera, de idêntica ou semelhante mistura étnica.

A região foi realmente, durante séculos, um imenso cadinho em que se fundiram as correntes invasoras, e, conforme o domínio de um e outro povo, foram-se ali formando dialetos diversos, desde o genovês e o milanês, parentes próximos do francês, até o macio vêneto, idioma ciciante, tão inimigo dos sons ásperos que chega a abrandar os che e ghe do italiano, a língua musical por excelência.

Não precisamos falar de certo do espírito marítimo de Gênova e de Veneza, as grandes repúblicas dominadoras por séculos do comércio do Oriente, e das lutas com que encheram a Idade Média, chegando Veneza a constituir na Ilíria, na Dalmácia, na Albânia e na Grécia continental e insular, um vasto império a que acrescentou na península as conquistas de todo o Vêneto retomado aos Carrara de Gênova, de Brescia e Bergamo, tiradas a Milano e de Rovigo e Polésine, vencidas na guerra de Ferrara.

Do descobrimento da América à Revolução Francesa, depois de grande e admirável rescimento artístico, entrou Veneza a decair. Em 1815, passou todo o norte da Itália ao domínio da Austria, domínio que só findaria para a Lombardia em 1859 e para o Vêneto em 1866.

De ambas essas regiões da Itália, agrícola e industrialmente adiantadas, mas principalmente do Vêneto, província de grande densidade demográfica, proveio a imigração para o Brasil, de comêço para o Rio Grande clo Sul e depois para S. Paulo, onde, no dizer de Luiz Amaral, possibilitou a abolição da escravatura, pois só a prova do rendimento do trabalho livre realizado pelo braço do imigrante italiano teria convencido os fazendeiros escravocratas que dominavam a política, da possibilídade, senão da vantagem, da extinção da mesma. No Rio Grande do Sul onde, desde 1824, a colonização se fêz à base da pequena propriedade, o imigrante italiano, embora sem as vantagens da gratuidade da terra de que gozaram os alemães, fêz-se desde início dono de sua lavoura e do lucro do seu esfôrço, como recompensa natural aos seus sacrifícios dos primeiros tempos. Conquistou a terra e a prosperidade geral que vale bem mais, certamente, que as grandes fortunas acidentais dos Crespi e dos Matarazzos. Aliás a destinação do imigrante italiano para a agricultura era tão tradicional no mundo português como a da navegação marítima dos Perestrelo, dos Colombo, e dos Vespuci.

A cana de açúcar fora da Sícília para a Madeira por sua mão e dali viera para São Vicente trazida, entre outros, por um José Adorno. No Rio Grande do Sul há igualmente um precursor na pessoa de João Batista Orsi que, em 1825, nos fôra enviado com carta autógrafa de D. Pedro I para a cultura da vide, de que trazia bacelos na mala. Estabelecido nos limites dos atuais municípios de S. Leopoldo e Caí, próximo a Nova Petrópolis, em váríos lotes coloniais, cumpriu perfeitamente a sua missão. Subdivididas depois as suas terras, deram lugar à linha S. Jacob, mas, no ,mapa do Caí, ainda que desfigurado para Orsi, lá está o seu nome a atestar uma atividade fecunda.

Adorno e Orsi já não se ligam a antropônimos itálicos, tal como os Accioli, os Cavalcanti, os Amador, os Corvinel, os César, os Dória, os Espíndolas, os Gentil, os Jacome, os Montenegro, os Nápoles, os Moreu, os Vivaldo, os Morgante, os Peçanha, os Secco, os Toscano, os Della Costa, os Bordini, os Maia, além de muitos outros, radicados há séculos em Portugal ou no Brasil e nas ilhas da Madeira e Cabo Verde.

Sucedeu-lhes o mesmo que aos Lins não italianos (Lintz), aos Vanderlei (Van der Lay), os Dutra e outros que se aportuguesaram (alguns se traduziram como os Silveiras) embora batavos e flamengos.

E se êstes e os intelectuais alemães, sobretudo os que nos vieram em 51, se fundiram por completo na população brasileira, não há que duvidar do poder de assimilação da nossa gente.

Como temos procurado demonstrar, a assimilação se faz sempre que há contato cultural prolongado e só não se processou entre nós lá onde isolado e inteiramente entregue às solicitações mesológicas, o camponês europeu seguiu sem contraste a sua tendência para a rotina e a imutabilidade de costumes.

Como aos alemães, tem-se acusado injustamente os italianos de resistirem à assimilação, sem se considerar a impossibilidade de ela se efetuar no isolamento em que ficaram. Mas se vênetos e lombardos são celtas e germanos latinizados, evidente é que se encontram já mais próximos de nós que os nórdicos de fala.

É certo que 393.934 pessoas, ou 11,86 % da população rio-grandense, falavam o alemão no lar em 1940, e que 295.995, ou 8,91 %, falavam dialetos italianos.

É ainda certo que o Rio Grande do Sul concentra 47,60 % dos que falam no Brasil uma língua estrangeira no trato das coisas familiares. Mas dêsses próprios dados se infere o rápido desuso da língua paterna pelos descendentes de italianos, de vez que mais nova e maior a imigração itálica que a germãnica. Concorrem para esse resultado não só a semelhança dos idiomas latinos, mas também o maior contato com as populações nacionais da serra e das próprias colônias antigas, com cujos habitantes só se podiam entender em português.

 


fig. nº 5 "Já o nosso vinho não teme, por algumas de suas marcas mais reputadas, o confronto com o estrangeiro comum; tamém o tipo corrente de vinho em barris melhorou consideravelmente. A produção vem se mantendo nos últimos anos acima de 50 milhões de litros." O clichê mostra dornas-pipas para a elaboração de vinhos brancos de alta classe.


 

Demais, êsses números só podem impressionar aos que ignoram que se isso acontece em tal proporção, será menos por culpa dos colonos que dos governos provinciais que jamais lhes deram as vias de comunicação -- as escolas que sempre nos reclamaram. É aliás evidente, por outro lado, o fracasso da resistência ultramentana movida pelos governos totalitários no sentido de prender à pátria de origem dos pais, os filhos aqui nascidos. Domenico Bartolotti, um dos caixeiros-viajantes do fascismo que por aqui andou por volta de 1930, se assinalava que só em Caxias do Sul funcionavam 40 escolas dirigidas por "italianos", dos quais 17 subvencionadas pelo govêrno de Roma, teve de recorrer à injúria à memória de um morto ilustre para apresentar aos seus patrões o nosso inesquecível Júlio Rafael de Aragão Bozano como "morto pela sua terra adotiva após conquistar nela um lugar de destaque!"

Aliás, sobre a tentativa do chamamento à "italianitá" dos filhos de italianos, podemos historiar aqui um dos seus fracassos mais decisivos, verificado muito antes que se procurasse entre nós nacionalizar o ensino, e que testemunhamos de perto.

Desesperando, ao que parece, da ação italianizante da escola primária cujo efeito logo desaparecia ao contato da vida nacional, resolveu o fascismo subvencionar um Instituto Médio para influir especialmente sôbre os adolescentes. Veio para isso da Itália um casal de mestres mais bem preparado que os simples "insegnanti" das primeiras remessas. E Augusto Menegatti e d. Linda Menegatti, professôres laureados na Península, fundaram entre nós o "Dante Alighieri" onde ao lado do italiano e da "Storia di Roma" se ensinava contabilidade, francês, português, matemática e outras matérias do curso médio comercial.

Ao cabo de poucos anos, a inutilidade da tentativa se patenteou. A rapaziada do internato onde só se falava o italiano e se exaltava a glória romana, alguns desta capital, mas a maioria vinda de Garibaldi, Caxias do Sul, de Bento Gonçalves, de Guaporé, não se deixou contagiar. E quando o enérgico "maestro" lhes falava à mesa nos séculos de civilização latina, depreciando o Brasil, se levantavam todos e, sem comer, firmes na posição de sentido, metidos nos seus uniformes de "alpini", protestavam em silêncio contra a injúria. Eram os Michielon, os Sassi, os De Carli, os Mottin, os Pilla, os Lubisco, eram os brasileiros da 1ª geração de nome itálico diante do diretor autoritário e estrangeiro, a jurar muda fidelidade à patria legitima e única.

E já numa atitude de revolta dos alunos o "Instítuto Médio Dante Alighieri", cortada que lhe fôra a subvenção estrangeira, passou a ser apenas o "Instituto Médio Ítalo-Brasileiro A. Menegatti' para encerrar, logo após, sem o menor resultado, a sua tentativa de italianização.

Anos depois fomos encontrar em Caxias do Sul o casal Menegatti, excelentes e distintas pessoas, de resto, como ecônomos do Clube Juvenil, numa função muito aquém da sua capacidade e da sua cultura, mas conformados em servirem e admiravelmente, diga-se de passagem, aos seus ex-alunos "brasiliani", substanciais pratos da Península.

Igual fracasso coroou a obra do cônsul e escritor Mario de Carli ao tentar, criar em 1932/3 nas escolas italianas de Pôrto Alegre corpos de "balilas" e de "avanguardisti". Denunciada por nós, pelas colunas do "Diário de Notícias", a manobra de desnacionalização das crianças brasileiras, a tentativa foi abandonada. Mas a denúncia servira. Transferido para Nova York, lá não teve exequatur o cônsul do "fascio".

 

Era por demais transparente no caso a inabilidade da pretendida italianização de crianças e adolescentes das cidades. Houvesse se exercido à socapa no âmago das colônias, talvez surtisse efeito, embora se possa bem duvidar dos resultados visto a conhecida ojeriza do imigrante vêneto pelo italiano do sul e pelos seus patrícios em geral, que lhe ridicularizam a fala e a quem em boa parte não entende. Se conservou êle sempre ardente a veneração pela grande "Itália ridenta" de cuja reconstituição histórica fôra testemunha presencial, salvo, é claro, raras exceções, sentiu-se entre nós dono do seu destino e independente do jugo romano, como o atestam as autoridades consulares, queixosas sempre do seu desapêgo às determinações do govêrno da península.

E isto se explica facilmente não apenas com a tradição de independência das repúblicas do norte, mas com a falta de escolarização italiana da maioria. Estava muito viva ainda no espírito dos velhos a opressão da escola austríaca, e os novos - dada a deficiência da escola pública italiana da época não tinham sido de todo conquistados para nova mentalidade pátria que se inaugurava. Avultado era o número de analfabetos nas levas imigratórias, e, pode-se afirmar com segurança, poucos os portadores, já não diremos de instrução primária completa, mas de um conhecimento elementar do toscano elevado à língua oficial do reino..

Na média geral do recenseamento de 1871 se verificara ali entre maiores de 20 anos, 60,17% de homens e 77,18% de mulheres sem instrução alguma, melhorando no ano de 1881 para níveis ainda insatisfatórios: 53,89%, para os homens e 72,93%, para as mulheres. A frequência média da escola italiana era aliás, mesmo em 1913, depois de vários decênios de obrigatoriedade, "davero umilianti per noi", como confessa Filippo Virgili, professor da Universidade de Siena, no seu compêndio de estatística, pois só era superior à da Rússia e provavelmente à de Portugal e da Turquia, na Europa.

Daí que, apesar de tôdas as graves falhas da nossa instrução, pudessem os filhos de italianos, como antes acontecera aos de alemães, sobrepujar de logo em conhecimentos de leitura e escrita elementar os seus velhos pais, como por várias vêzes demonstramos.

 

V.O REGIME DE COLONIZAÇÃO DO RIO GRANDE

 

É sabido que a colonização do Rio Grande do Sul, por açorianos, alemães e italianos tem longínqua origem no despacho do Conselho Ultramarino da metrópole lusa, de 22 de junho de 1729, no qual dizia "conveniente que, se não instalando no sul, nas povoações da Colônia e outras, casais de ilhéus, e quando êstes forem insuficientes, se podiam conseguir casais estrangeiros, sendo alemães ou italianos e de outras nações que não sejam castelhanos, inglêses, holandeses e franceses".

A êsse conselho obedeceu a metrópole ao povoar o Rio Grande com casais das ilhas, obedeceram D. João VI e D. Pedro I na fase da colonização alemã e a êle voltaria o império de D. Pedro II ao recorrer à imigração italiana quando a primeira corrente estrangeira já quase estancara e se estava revelando insuficiente.

O sistema de colonização adotado no país, desde o inicio, foi o chamado Walkefield que constituía na distribuição de um lote de terra, ferramentas, animais e sementes aos agricultores e no pagamento de módicos subsídios para a alimentação dos colonos no primeiro ano do estabelecimento.

Ao tempo do contrato Caetano Pinto & Irmão e Holtzweissig & Cia., essas condições se achavam porém muito modificadas. O colono pagava a passagem até o Rio Grande e devia indenizar, no prazo de 5 anos, as despesas feitas com sua introdução. Continuava porém o regime da diária para alimentação que era na época de 500 réis para os adultos e de 250 para os menores, prestando em troca, o imigrante, serviços na construção de estradas e caminhos vicinais.

A terra no regime imperial pertencia ao país. Dêsse modo a colonização só poderia ser promovida, de início, como o foi, pelo Govêrno Geral. Em 1848 porém cedeu esta, como já vimos, a cada uma das províncias 36 léguas quadradas de terras devolutas, destinadas exclusivamente à colonização, não podendo, na expressão textual do artigo primeiro da lei: "ser arroteados por braços escravos".

O Rio Grande do Sul foi talvez a província que melhor aproveitou esta dádiva. Fundou, imediatamente após, a colônia de Santa Cruz. De começo tentou, pela lei nº: 229, manter o sistema de doação gratuita de terras, estipulando a área de 100.000 braças quadradas para cada lote. Corriam ainda por conta da Provlncia o transporte, as ferramentas e sementes. Já em 1854, a lei 504 mudaria por inteiro essa orientação: a colonização se faria daí por diante na base de venda da terra e da indenização das despesas nos cinco anos subsequentes ao estabelecimento e foi êsse o regime que veio entre nós encontrar a colonização italiana.

Referimos já a incerteza então-dominante quanto ao domínio das terras coloniais. Nas seis léguas em quadro da concessão imperial tinha a Província estabelecido e povoado Santa Cruz, Santo Ângelo (Cachoeira), Nova Petrópolis e Monte Alverne.

Mas, dizia a respeito, em 1882 o presidente Rodrigo Azambuja Vilanova:

"Acresce que desde a sua fundação e durante o seu desenvolvimento houve o mais lamentável descuido, que deu em resultados não saber-se hoje qual a área territorial que ocupara e conseguintemente de que parte da concessão citada já se utilizou a Província."

 

Narra a confusão criada a respeito do Conde D'Eu e D. lsabel, que só puderam ser povoadas pelo Govêrno Geral e o andamento das indenizações pretendidas, para acrescentar: "De então em diante cresceu a incerteza sôbre a posse da Provlncia, não se sabendo, em casos dados, de que terras se tratavam", pois não ocorrera a ninguém a verificação da área ocupada pelas colônias provinciais. Mandou aquêle presidente fazer-se essa avaliação, mas apenas Nova Petrópolis foi inspecionada. Entretanto, concluía ele:

 

"De tôdas as informações colhidas pode-se presumir que as 36 léguas da lei de 1848 não foram preenchidas; cálculo mais fidedigno porém e exato, só se terá quando houver sido feita a delimitação das colônias e avaliada a sua superfície. Então será tempo, se já não o é, de liquidar o direito da Província à inde-nização das despesas (com a discriminação dos núcleos do planalto) ou tratar-se de estabelecer que terras mais possui ela, além das 36 léguas quadradas,

"Do exposto, continuava, deve-se tirar a convicção de que em má hora e sem fundamento algum, abandonou a Província o serviço de colonização.

"A província cometeu um grande êrro confiando ao Estado o cuidado da introdução de imigrantes para o povoamento do seu solo; deixando de aumentar a área dos seus núcleos coloniais e de fundar novos; finalmente, abandonando a obra começada e resolvendo vender as suas terras, ainda não perfeitamente discriminadas, a empresas particulares.

"O resultado era para ser previsto: o Govêrno Geral fundou apenas algumas colônias, que ainda sustenta, é verdade: mas por um dêsses casos tão comuns em nosso país, com as mudanças de ministros vêm também as mudanças de plano e a imigração que de preferência e com assentimento do Govêrno procurava esta Província, tomou outro rumo, encaminhando-se hoje quase na sua totalidade para S. Paulo, sendo insignificante, o número dos que buscam a Província."

Começara, êste é o caso, o fluxo e refluxo migratório da mão-de-obra, com o auxílio da qual o Govêrno Geral e o de São Paulo procuravam preparar a libertação da escravatura. Eram levas de trabalhadores rurais assalariados que aproveitando as diferenças das estações nos dois hemisférios embarcavam durante o inverno europeu para colher café em São Paulo e trigo na Argentina, regressando após à pátria. Vinham "fazer a América", como diziam.

Ao contrário, porém, do que supunha o presidente Vilanova, a imigração de famílias dispostas a se tornarem proprietárias e se fixarem entre nós, continuaria para os estados do sul, registrando recordes, antes imprevisíveis, em 1890 e 1891.

 

É certo que a Província não mais retomaria a iniciativa a respeito. Todos os núcleos daí por diante aqui fundados, até o último daqueles anos, o foram pelo Govêrno Geral ou por particulares. Só em 1892, três anos depois da mudança do regime, o Estado entraria a cuidar do assunto.

 

Mas da literatura oficial do fim do império, uma página há sôbre colonização que merece ser salva das traças. ╔ um capítulo da "Fala" do Dr. Joaquim Pedro Soares, na sessão inaugural da 19ª legislatura de que nos permitimos retirar apenas alguns períodos que ferem questões administrativas a que já aludimos.

 

Reflete ela, não é preciso dizer, uma reação ao descaso com que a Província estava encarando a colonização, ao abandono do problema a que chegara. E embora não se possa concordar com todos os conceitos daquele presidente, como os que entende emitir por exemplo sôbre a língua nacional, interessante é a nosso ver a exumação que aqui fica:

"É a colonização o problema de cuja solução depende essencialmente a grandeza, riqueza e poder de nossa pátria.

"Essa solução ainda não foi dada. É uma destas necessidades sociais que se não pode acudir de pronto: depende de modificações profundas nas condições da sociedade brasileira.

 


Fig. 6 Desbravando a mata, cultivando o solo, espalhando Lavouras, o colono italiano tem sido também plantador de cidades. A foto apresenta uma vista de Veranópolis.


 

"É necessário preparar o terreno para receber e fixar a torrente imigratória, para ligar ao solo com o ânimo de nêle fixar residência permanente o estrangeiro.

 

"Nos seus relatórios ao parlamento, o govêrno lhe dá conta de esforços feitos em bem da imigração. Gastam-se somas consideráveis com êsse melhoramento e a população do Império pouco ou nada cresce. Qual a razão desse malogro? É necessário dizê-lo com franqueza e lealdade.

"Os estrangeiros não nos tem procurado por motivos que nenhum dinheiro pode abalar.

"Abandonados, a sua vida é uma luta insana e de todos os dias, de tôdas as horas e de todos os momentos; Eles lutam com a nossa ignorância, com os nossos escravos, com os nossos costumes, com as nossas moléstias, com as nossas necessidades, com as nossas instituições.

"Para coroar todos esses males falta-lhes a primeira das liberdades: a liberdade religiosa, e a primeira das proteções, a proteção ao trabalho.

 

"Como todos os países, temos cometido grandes erros sobre colonização.

 

"Avultadíssinia despesa temos feito com êsse serviço e se não temos compensação correspondente a essa enorme despesa, contudo bastantes lucros já auferimos do grande sacrifício que temos feito.

 

"Os Estados-Unidos que nos ministram o exemplo dos prodigiosos resultados da colonização em país grande e novo como o nosso, também só gradual e dificilmente puderam colocar a colonização em condições de dar de si maravilhosos resultados.

 

"Começaram recebendo escassa imigracão espontânea, tendo atravessado um período de 20 anos, de 1790 a 1810, em que a média anual dos imigrantes introduzidos não excedeu de 6.000, tendo-os mandado buscar na Alemanha e Inglaterra.

 

"Só depois de longos anos, depois da independência, pôde obter os resultados que o mundo inteiro hoje admira. O malôgro dos nossos ensaios sôbre colonização, provém de várias causas, das quais as principais são as seguintes:

 

- O govêrno em matéria de colonizaçào se tem guiado por um princípio ilusório, uma falsa economia que não resiste ao menor exame.

- Tem estabelecido os centros coloniais em terras devolutas pertencentes ao Estado, as quais em geral são situadas em desertos, regiões longínquas onde faltam todos os recursos de que carecem os colonos para as suas necessidades primeiras.

 

"O governo da metrópole pela imprevidência com que durante o nosso regime colonial procedeu na distribuição de terras, a avidez que os nossos antepassados se apoderaram de vastos territórios que não podiam cultivar e a largueza com que foram concedidas estas terras, que presentemente seriam mais aptas para a colonização, eis a primeira causa geral das dificuldades com que temos lutado em matéria de colonização.

 

"O receio de grandes aglomerações de estrangeiros no Império tem sido um êrro que gradualmente tem embaraçado a colonização entre nós.

 

"Mesmo nesta província, em que uma civilização mais adiantada, a altivez, energia e valor de seus habitantes tornam mais fraco êsse anacrônico receio dos estrangeiros, êle se manifestou até em alguns presidentes da província em referência à ex-colônia de São Leopoldo, a ponto de aconselharem que não se admitissem mais colonos para aquele núcleo que se tinha constituído um Estado no Estado."

 

"Entre nós tem-se acusado os colonos de não se quererem naturalizar, apesar das faculdades que para isso lhes foram dadas: de conservarem sistematicamente o uso da sua língua para não se confundirem na massa da população do país; não se prestarem ao serviço da guarda nacional e resistirem ao recrutamento e finalmente não mandarem os filhos para as escolas nacionais.

 

"Estas queixas não podem autorizar motivos de acusação contra a colonização e nem autorizar o receio dos estrangeiros.

 

"Não tem havido cuidado na nomeação de autoridades quer judiciárias quer administrativas para as circunscrições que compreendem os nossos núcleos coloniais.

 

"Em geral, para êsses lugares não são nomeados os melhores juízes, nem as mais distintas autoridades administrativas como devia ser.

 

"Nomeados em geral professôres quase analfabetos, que só conhecem e muito mal a língua nacional, para ensinar os filhos dos colonos que, mesmo nascidos no Império, em geral e muito naturalmente não falam a língua nacional, não tem podido suas aulas ser frequentadas pelos colonos.

 

"Nem o mestre poderia entender aos discípulos e nem êste àquele.

 

"Não é porque os colonos não queiram falar a língua nacional, que seus filhos não frequentam as escolas nacionais e sim porque os professôres que as regem não falam senão o português e muito mal ensinam esta língua mesma.

 

"O Estado tem certamente interesse em que os membros da mesma comunidade falem a mesma língua e uma há que deve ser sempre considerada como língua oficial; mas o Estado não pode obrigar a que os descendentes de uma nacionalidade diversa deixem de aprender a língua de seus pais, e sobretudo quando essa língua tem uma literatura tão rica como a alemã. E, além disso, a língua não cunstitui a nacionalidade e povos há que os nacionais falam mais que uma língua, dando-se até mais pronunciado patriotismo às vezes naqueles que falam língua diferente da oficial, como alsacianos, que falando o alemão deram exuberantes provas do mais entranhado amor à França quer antes, quer depois de deserdados daquela pátria.

"O que se dá entre nós a este respeito também dá-se em todos os países euja população é formada de raças diversas, como nos Estados-Unidos, no Canadá, no México, na Austrália, na Rússia Meridional, na Bessarábia, na Hungria, na Argélia, etc."

 

"Não são as circunscrições constituídas pelos núcleos coloniais as mais apetecidas pelos juízes, nem pelas autoridades administrativas e nem pelos brasileiros, importantes, pela sua inteligência ou pela sua riqueza."

 

"Assim é que o fôro, nestas circunstâncias, organiza-se muitas vezes com maus juízes, maus funcionários, de tôda a espécie que desgostam aos colonos e lhes fazem conceber maus conceitos de nós, maus conceitos que durante muito tempo transmitiam para os seus parentes, desacreditando a colonização para o império nestes centros de imigração.

 

"É necessário guardar o maior cuidado na escolha do funcionalismo que deve servir nas circunscrições coloniais, convindo mesmo que maiores vantagens atraíssem para aquêles pontos o melhor pessoal do funcionalismo.

 

"As posses e domínio de terras dadas e vendidas aos colonos não foram constituídas definitivamente porque pessoas imperitas foram, em geral, encarregadas de proceder à demarcação dessas terras o que tem sido origem de inumeráveis questões entre colonos, causando-lhes graves prejuízos e desgostos.

 

"O povo das colônias, ativo como é no trabalho, não conta nem facilidades, nem cômodos, nem garantias que devia gozar.

 

"De um lado faltam-lhe as vias de comunicação, falta-lhe o crédito, faltam-lhe as máquinas, os canais, as pontes e todos os mais auxiliares do trabalho. De outro a guarda nacional e o alistamento para o exército são verdadeiros gênios de extermínio que de vez em quando têm atacado a casa dos pobres, paralisando o movimento e a vida que encontram e deixando após si a desolação da miséria e da ruína.

 

"Eis mais uma grande dificuldade oposta à colonização.

 

"Não é exato dizer-se que a geração nova das colônias manifesta antipatia pelo espírito nacional; pelo contrário, observa-se que ela tem um certo orgulho de estar ligada ao país pelos laços do nascimento.

 

"Muitos dêsses colonos tomaram parte na guerra civil; nas paradas onde dominava o espírito católico, abraçaram a causa da rebelião, enquanto que os protestantes pertenceram à legalidade.

 

"Muitos descendentes de colonos ocupado postos e lugares importantes, na guerra do Paraguai contam-se muitos bravos teuto-brasileiros, como Niederauer que sucumbiu gloriosamente e para cujos descendentes a nação paga uma pensão."

"Só grandes benefícios tem trazido a esta província a colonização e muito nlaiores dela ainda esperamos."

"Pôrto Alegre e o norte da província ostentam hoje um futuro grandioso devido à colonização."

"Não lamentemos pois as despesas que temos feito com a imigração e não façamos espécie dos nossos erros, que têm tido compensação de vantagens que os faz esquecer.

"0 Dr. Engel, Diretor da Repartição de Estatística, em Berlim, avaliando o custo de um trabalhador, faz o cálculo seguinte:

"Divide em três períodos a vida econômica de cada indivíduo; dois improdutivos e um produtivo. O primeiro período compreende a criação e educação de um indivíduo. Seguramente esse período tão é sómente improdutivo, ele é, também dispendioso porque causa desembôlso."

"O segundo se estende de quinze a cinquenta e cinco anos; é único período produtivo. O terceiro, que vai dos sessenta até a extrema velhíce, é também, improdutivo. A êsses três períodos chama êle o 1º - juvenil, o 2º - do trabalho, e o 3º - senil.

 

"Avaliando o custo de um operário manual na Alemanha, estima em 40 táleres anuais nos primeiros cinco anos; sendo a média de cinquenta táleres por ano, vem a ser o custo total do operário 750.

"O Sr. Kaap nos Estados-Unidos, revendo êste cálculo e tendo em atenção o elevado preço dos objetos ali, calcula no dôbro, isto é, em 1500 táleres, equivalentes a 1500 dólares em papel, ou em moeda 1:590$000 réis. Sendo computado em metade dêsse valor o custo de um operário do sexo feminino por se prestar em idade mais tenra aos seirviços domésticos, serve a média do custo dos trabalhadores compreendidos em ambos os sexos, 1:462$500.

"Já se vê pois qual o avanço que se faz ao capital nacional promovendo a introdução de braços trabalhadores.

 

"Por estas razões tendo o Govêrno Geral ordenado, peremptoriamente que nenhuma despesa fôsse feita, com os colonos espontâneos, por conta do tesouro nacional nesta província, ordenei que fôssem êles aqui alojados e alimentados até as colônias de seus destinos por conta dos cofres provinciais a fim de aproveitar o resultado dos trabalhos já feitos, promovendo o aumento dessa corrente de imigração espontânea que ultimamente nos tem dado magníficos colonos".

 

São, como se terá visto, as que ficam transcritas, palavras incomuns nos relatórios, e, embora não tivessem outro efeito, revelam corajosa franqueza.

Abandonada a colonização provincial, sobretudo por recusar-se o Govêrno Geral a permitir o loteamento de novas glebas sem ficar antes apurado se haviam sido ou não utilizadas as 36 léguas da concessão de 1848, entrou a florescer no Rio Grande a indústria da legitimação de posse. Só no período decorrido de 30 de novembro de 1885 a 15 de novembro de 1889, nada menos de três bilhões de metros quadrados foram declarados pertencentes a posseiros que, na maioria dos casos, mal conheciam de vista as terras requeridas.

Facilitava essa delapidação do patrimônio público o regime que, como vimos, negava à Província o que, pela autoridade desta, concedia a terceiros.

 

Curioso, sem dúvida, é o fato de esta legislar a respeito com liberalidade maior do que a das condições que lhe eram impostas pelo govêrno do centro. Assim, o ato n.º 30, de abril de 1886, consolidando disposições sôbre a venda de terras pertencentes à Província (note-se que esta não sabia se tinha qualquer domínio territorial liquido) dispunha, por exemplo, que as terras situadas em zonas não colonizadas, e que não fôssem contíguas às colônias, poderiam ser vendidas a preços entre um terço e um oitavo do real por metro quadrado, mediante pagamento à vista, a companhias ou particulares que se obrigassem a colonizá-las.

 

Sabendo-se que nas terras junto às colônias se cobrava um real por metro quadrado, obrigando-se o colono a indenizar as despesas de medição e demarcação, bem se pode imaginar o estímulo à fraude que essa legislação representava.

Proclamada a República, continuou, não obstante, como vimos, a colonização a cargo do govêrno do centro até 1891. Só daí pordiante, atribuídas, pela Constituição de 24 de fevereiro as terras devolutas às Unidades Federativas, passou o Estado a cuidar da respectiva discriminação e povoamento, embora continuasse a ser promovida e estipendiada pela União a corrente imigratória.

 

O primeiro ato do Rio Grande republicano relativo à colonização é de l892 e firmado por Barros Cassal. Nêle se determina que nos territórios adjacentes ou próximos dos lotes coloniais não se conceda área maior de 30 hectares, preferindo-se, para os lotes nestas condições, nacionais ou estrangeiros com família já residentes nos núcleos e "cujos antecedentes e costumes afianciem o aproveitamento das terras pretendidas".

 

Dispunha ainda que nenhuma concessão de terras seria maior de cem hectares, se destinada à lavoura e de 400 se destinadas à colonização, caso em que teriam de ser divididos em lotes e entregues a colonos nacionais ou estrangeiros no prazo de 5 anos, sob pena de reverterem ao Estado.

 

Resguardava outrossim as zonas privilegiadas das estradas de ferro, uma faixa de 20 km em cada margem dos rios navegáveis e das estradas de rodagem, para a formação de núcleos coloniais que se destinariam a brasileiros e imigrantes.

 

Em virtude da crise financeira consequente à revolução de 1893, foram suspensos, logo a seguir, todos os favores concedidos à imigração. Foi por conseguinte um período difícil o que atravessaram os colonos, a propósito dos quais dizia, em 1896, o engenheiro João José Pereira Parobé, Secretário das Obras Públicas:

"É sobejamente conhecido que os imigrantes chegados a êste Estado, onde vêm procurar nova pátria e constituir-se nela um dos fatores mais importantes de seu progresso e adiantamento, são quase que exclusivamente proletários, não trazendo recursos de ordem alguma e por conseguinte compelidos a lutar com dificuldades insuperáveis até que obtenham a primeira colheita de suas plantações. Privados dos meios de subsistência e do teto provisório para se abrigarem nas matas virgens das nossas colônias, muitas vêzes desanimam, abandonando os lotes à procura de outro meio de vida. Sómente nos dois últimos semestres ficaram nesta capital 972 imigrantes que não quiseram seguir para as colônias".

 

Facilitava-se então aos colonos unicamente o transporte, e dava-se-lhes trabalho nas estradas durante 15 dias por mês, mediante paga de 500 réis por metro corrente construido.

Sob tal regime fundaram-se as colônias Maciel e Guaporé, constituídas principalmente de italianos, além de várias outras, na Serra.

Afinal, em 1899, pôde o Estado legislar em definitivo a respeito. A lei nº 28 esclareceu o conceito de terras devolutas e tratou de defender as matas naturais da devastação que Sofriam. Regulou, ademais, exaustivamente, a formação de núcleos, a recepção e o encaminhamento dos imigrantes, o preço das terras, a cobrança da divida colonial, as obrigações dos colonos, etc.

 

Esforçava-se então o Estado pelo estabelecimento da imigração espontânea, chegando a registrar, em 1900, 71 % e, em 1902, nada menos de 77 % de imigrantes voluntários, na maioria agricultores de algumas posses.

 

A partir de 1903, porém, começou a Diretoria do Povoamento do Solo a remeter-nos por conta da União grandes levas de imigrantes, sem nenhuma escolha. Estabeleceu-se nesta capital uma Inspetoria de Povoamento do Solo que passou a adiantar aos imigrantes 250$000 para a casa e 150$000 para ferramentas e sementes. Visando regularizar essa vultosa corrente firmou o Estado, em 1908, um convênio com a União, pelo qual se obrigava esta a não remeter mais de 400 imigrantes por mês e a pagar ao Estado as despesas de hospedagem, à razão de 1$500 por dia e por pessoa, dar aos colonos transporte por estrada de ferro, quando fôsse o caso, e a entrar para os cofres do Estado com o já citado auxílio de 400$000 por família, para casa, ferramentas e sementes. Por sua vez obrigava-se o Estado a devolver à União 150$000 por fam'ília estabelecida, à medida que fôssem liquidando estas os seus débitos.

 

Alegando, porém, que não podia desfazer as levas constituídas na Europa por parentes e amigos, já no primeiro mês de vigência do Convênio remetia a União 1.361 imigrantes em vez de os 400 convencionados.

 

Pode-se imaginar as dificuldades e atropelos daí resultantes e que perduraram até 1914, quando foi rescindido pelo Estado o convênio em aprêço.

 

A 13 de julho désse ano, às vésperas da primeira grande guerra mundial, voltava assim o Estado ao regime de imigração e colonização espontânea, pago o lote de 25 hectares um têrço à vista e o restante ao prazo de 5 anos.

 

Justificando a medida o então presidente Dr. A. A. Borges de Medeiros, afirmava "não ter o Estado necessidade de introdução de grande número de imigrantes, por ser a sua população agrícola já bastante elevada, representando mais de 1/3 da população total e com capacidade de produção que se pode tornar dez vezes maior se o consumo o exigir". "É preferível, dizia em ofício ao Ministro da Agricultura, voltar ao regime da colonização exclusivamente por imigrantes espontâneos estabelecidos pelo Estado, e cujas vantagens são superiores às da colonização por colonos aliciados, sem seleção, que pode convir quando apenas se quer povoar o solo, mas não quando se pretende colonizar com elementos que, identificando-se conosco, tornem-se fatôres do nosso progresso, sem inspirar receios de qualquer natureza".

 

A intenção era das melhores, como se vê; o resultado foi porém o de fazer com que o excesso daquela população, "com experiência e conhecimento colhidos em largo tirocínio de trabalho agrícola", a que se reservara a venda das terras do Estado, ir na maior parte povoar o Contestado e outras regiões de Santa Catarina e do Paraná, emigrando também para a Argentina. E o que então perdemos, foi na quase totalidade, a prolífica gente itálica, saída das velhas colônias, mas, principalmente de Alfredo Chaves, Nova Prata e Guaporé.

 

VI. OS PRIMEIROS NÚCLEOS COLONIAIS POVOADOS DE ITALIANOS

 

 

Falamos já de Conde D'Eu e de D. Isabel, a primeira colônia provincial a ser povoada na década de 70. Situou-se em terras relativamente pobres, pois pertencem, como as demais do planalto, à formação triássica, apresentando, sôbre o grés da série de Botucatu, largo derrame de basalto e meláfiro. O terreno é acidentado e, embora situado a 650 m de altura, fende-se em fundos vales por onde correm arroios tributários dos rios das Antas e Caí. Os principais dentre êles têm os nomes de Boa Vista, Marrecão e Burati.

O povoamento se fêz de início com muita dificuldade, dada a deficiência das comunicações. No já citado relatório de 1873, o agente intérprete Luiz Kraemer Walter menciona a existência de 80 lotes medidos, dos quais apenas 20 "prazos" tinham cultura efetiva, havendo mais 30 concedidos, mas desocupados, e outros 30 devolutos. E acrescenta: "tendo lembrado em meu relatório desta colônia a conveniência de se proceder à medição de mais prazos coloniais neste núcleo, entendeu S. Excia. o Sr. Conselheiro Figueira de Meio dever contratar, com o Sr. Major Palmeiro, a medição de 500 lotes. Acho êsse número exorbitante e por certo quando aconselhei aquela medição, fundado em que muitos imigrantes do contrato Caetano Pinto ali se fôssem estabelecer (o que infelizmente não tem acontecido devido a distância em que se acham dos pontos habitados), não julguei que se mandassem medir mais de 50 a 100".

E em 1875, retomando ao assunto, nos diz que o número de lotes cultivados diminuíra de 1, pois só havia 19. Ao todo, havia ali 74 pessoas, das quais 38 católicas e 36 protestantes, 27 casadas e 47 solteiras, e, acrescenta: "Pelos motivos já externados em meus precedentes relatórios, não têm estas colônias podido prosperar, apesar da uberdade de seu solo e da 'sua excelente situação".

 

"Para se poder povoar esta colônia com alguma probabilidade de sucesso, será necessário não só aperfeiçoar a estrada que últimamente foi aberta a partir da colônia de Santa Maria da Soledade, a fim de que os colonos recém-chegados alcancem os seus prazos passando sempre por terrenos habitados; assim como que se crie uma diretoria na própria colônia com casa de moradia para o diretor, etc., enfim, que se coloque a colônia no mesmo pé em que se acham suas irmãs, oferecendo assim ao imigrante as comodidades e garantias de que tanto carece em uma colônia nova".

Sonhava-se na época com uma estrada de ferro que partindo de Montenegro atingisse a Feliz. Seria, ao ver do agente intérprete, a salvação não só das novas colônias do planalto, mas de Nova Petrópolis, cujo desenvolvimento se via peado pela falta de boas estradas carroçáveis.

 

Em Montenegro continuava como agente Colonial José Antônio Rodrigues Rasteiro, que se esforçava em vão para atrair para Conde D'Eu famílias de colonos das velhas picadas. "Não tem porém sido bem sucedido - diz Walter - nem o será enquanto a colônia se achar tão segregada de outros núcleos habitados".

Esse pessimismo se modificaria em breve. O fato é que já em dezembro de 1875 os núcleos do planalto começaram a receber novos imigrantes e em março do ano seguinte já podia o presidente José.Antônio de Azevedo Castro anunciar a existência ali de 348 lotes medidos e demarcados, e uma população de 790 pessoas, das quais 48 franceses que diz terem sido mandados "para servirem de núcleo". Esses povoadores, dos quais infelizmente não se guardaram os nomes, se achavam estabelecidos ao longo da estrada geral e na linha Figueira de Melo. Entre êles deveriam estar aqueles 729 italianos noticiados pelo presidente e a respeito dos quais nada absolutamente dizem as listas de imigração, como fizemos notar.

De uma breve resenha histórica feita pelo Sr. Júlio Lorenzoni para o volume comemorativo do cinquentenário da imigração italiana, consta, entretanto, a seguinte lista dos imigrantes chegados a D. Isabel a 24 de dezembro de 1875: Isidoro Agostini, Cristóvão Ambrosi, João Batista Bata, Leonardo Copat, Domingos Gasperi, Pedro Dorigatti, Antônio Enel, Abraão Gado, José Giacomoni, Antônio Giovanini, João Giovanella, José Lunedi, Tomaz Pintarelli, Nicolau Pozza, José Rampanelli, Carlos Ranzi, Felix Refatti, André Slomb, Domingos Tomazinni e Mateus Valduga, todos do Trentino.

 

Como primeiro diretor da colônia aparece o capitão João Jacinto Ferreira, nomeado -3m agôsto de 1874, do qual, diz o relatório, "tem preenchido muito a contento a administração de seus deveres". A 1º de fevereiro de 1876 nomeava o govêrno para o cargo de guarda-livros e professor da colônia D. Isabel o cidadão Manoel Batista Lisboa Bittencourt, percebendo a gratificação mensal de 200$000, servindo o mesmo "enquanto não tiver casa para morar e lecionar, de ajudante de diretor da colônia".

 

Informa ainda o presidente Azevedo e Castro que "sendo de urgente necessidade a abertura de uma estrada na Linha Figueira de Melo e a construção de um galpão na mesma linha para receber os colonos", ordenara ao engenheiro Sales Tôrres Homem que organizasse o respectivo orçamento.

 

Confessa assim o administrador, que linhas antes dissera ser uma injúria ao nosso caráter hospitaleiro os embaraços de parte dos governos europeus à imigração e afirmara ter o da província "empregado os maiores esforços, dispendendo quantiosos capitais para engrossar a corrente da imigração, já facilitando os meios de transporte, já provendo com o necessário para a subsistência o estabelecimento daqueles que demandam as nossas plagas", que não possuía sequer um barracão para abrigar as primeiras levas remetidas a Conde D'Eu e D. Isabel, nem estava aberta a picada da linha Figueia de Melo.

Literalmente jogados no mato é que foram êsses primeiros imigrantes como daí se depreende. Não obstante, o otimismo que passara a dominar os responsáveis pela colonização afirmava em letra de fôrma que -"No curto espaço de 4 meses apresentam eIas aspecto florescente".

E bem se pode imaginar que aspecto seria êsse quando é o mesmo presidente quem observa que, entre os imigrantes desabrigados, como vimos, "apareceram alguns casos de varíola, porém dei imediatamente as necessárias providências, remetendo ao diretor algumas lâminas de pus vacínico, e não se propagou o mal".

D. José Barea, o eminente prelado de Caxias do Sul, no seu minucioso estudo sôbre a "Vida Espiritual da Colônia Italiana", elaborado para o volume comemorativo do cinquentenário da imigração, nos afirma que um dos primeiros, senão o primeiro imigrante italiano estabelecido em Conde D'Eu, teria sido Cirilo Zamboni que então (l925) ainda vivia, com 83 anos de idade, que teria chegado àquele núcleo a 15 de novembro de de 1875, ali já encontrando algumas famílias, suíço-francesas. Em fins do mesmo ano e começos de 76, lá chegaram, acrescenta, numerosas famílias tirolesas, cremonesas, bergamascas, e vênetas que, transportadas de Montenegro em carretas até a casa do cidadão Cristoffel, além de Maratá, dali se dirigiram ao seu destino parte a pé, parte a cavalo, por Campestre e Poço das Antas, através de caminhos quase impraticáveis.

 

O mesmo ilustre.pesquisador informa que os primeiros imigrantes, estabelecidos na Estrada Geral de D. Isabel, ali chegaram a 24 de dezembro de 1875, o que concorda com o relatório do presidente Castro e com a relação do Sr. Lorenzoni.

 

No ano seguinte, passados os dois núcleos ao govêrno geral, cessam a seu respeito as notícias nos documentos provinciais.

Não obstante do relatório com que o presidente Américo de Moura Marcondes de Andrade passou o govêrno ao Dr. Felisberto Pereira da Silva se verifica que a situação ali não seria das melhores. O govêrno imperial recomendara a que a execução de qualquer obra pública, mesmo em benefício da colonização, só fôsse empreendida após autorização do Ministério da Agricultura. Subentendeu-se que mesmo os trabalhos dos caminhos vicinais em que se empregavam os imigrantes recém-chegados até que pudessem contar com os alimentos da primeira colheita estavam suspensos.

 

Em telegrama de 12 de dezembro de 1878 ponderava o presidente a inconveniência da medida que poderia até perturbar a ordem reinante nas colônias, de vez que grande número de imigrantes estava na dependência dêsse subsídio. Logo após, em ofício, transmitia ao Ministro as ponderações do engenheiro José Tomé Salgado, ex-diretor de D. Isabel, em que se demonstravam os prejuízos resultantes da paralisação da construção de, estradas, "principal elemento de progresso de estabelecimentos da ordem dos que se trata".

 

Ao que parece, teria havido confusão respeito à ordem em aprêço, dado que o Ministro respondia a 20 de janeiro de 1879, declarando que o regulamento em vigor "não obrigava o governo a dar trabalho aos colonos, não o havendo", mas autorizando a presidência da Província "a marcar prazo dentro do qual receberiam êles salário para se alimentarem, contanto que trabalhassem nos seus lotes".

 

Pelo referido motivo ou, quem sabe, como resultado da grande sêca de 77, o fato é que setenta e tantos colonos de D. Isabel se dirigiram à capital alegando falta de recursos. Providenciando a respeito o cônsul da Itália, mandou o presidente recolhê-los ao barracão de recebimento de imigrantes e alimentá-los.

 

Verificando após que se tratava de colonos antigos que já haviam recebido os subsídios do primeiro ano, mandou intimá-los a regressarem aos seus lotes, ao que não acederam, sendo por isso excluídos dos quadros coloniais, exceção feita de Chitoline Pio que regressou às suas terras.

 

Para Conde D'Eu e D. Isabel, onde, parece, os ânimos não estavam tranquilos, fêz o governo seguir destacamentos de 10 praças para a manutenção da ordem.

 

Daí por diante escasseiam ainda mais as notícias sôbre as colônias a cargo do govêrno geral, limitando-se as "Falas" dos presidentes a referir as mudanças ocorridas na administração das mesmas.

Apenas em 1881 volta-se a tratar de ambos os núcleos para noticiar-se, então, que seu diretor, o engenheiro João de Carvalho Borges Júnior, chamava a atenção da presidência da província para a difícil posição em que se encontrava pela falta de recursos, prevenindo que em fevereiro daquele ano, por não haver crédito, teriam de ser suspensas as obras da estrada de rodagem de S. João de Montenegro, "de inevitável necessidade para a emancipação que intenta o Govêrno Geral de ditos estabelecimentos".

 

Sabemos, por outro lado, que o povoamento dos lotes coloniais dos "Fundos de Nova Palmira" teve início em 1875 desde que anexado, em parte, à colônia de Santa Maria da Soledade, ali se verificara no fim daquele ano a existência de 49 italianos.

 

Para as primeira e segunda léguas de Caxias do Sul dirigiu-se a imigração logo a seguír. D. José Barea aponta como primeiros habitantes do território de Caxias do Sul três famílias milanesas de Monza: Stefano Crippa, Luigi Speráfico, e Tomazzo Radaelli, que realmente o foram, mas não só elas. É provável que a respeito tenha havido esquecimento da tradição oral.

 

O fato é que os componentes da primeira leva chegada a Caxias do Sul, a 30 de setembro de 1875, eram 110, como consta do registro de concessão de lotes. Segundo os nomes de família, assim se classificavam:

 

1º Radaelli, Giovanni e Maria com 9 filhos; e Tomazzo e Maria, casal sem filhos. Contava u primeiro 52 anos e o segundo apenas 39. Daí talvez o fato de só se recordar o nome do mais moço. ,

2º Crippa, Pietro (44 a.) e Maria, com 4 filhos; Emílio (41 a.) e Maria, casal sem filhos; Stefano (22 a.) e Natalina (l8 a.) de certo recém casados; Carlo e Antônia, casados, e Caetano, com 27 anos, solteiro.

3º Speráfico, Luigi (38 a.) e Ângela, com 5 filhos.

4º Casaghi, Carlo (43 a.) e Colomba, com l filho.

5º Berreta, Franeesco (29 a.) e Emilia.

6º Boratti, Giovanni (22 a.) e Teresa - Francesco (56 a.) e Adelaide, casais sem filhos; Carlo (50 a.) e Carolina, com 2 filhos.

7º Sachine, Natale (30 a.) e Luigia, com l filho.

8º Gaviraghi, Ângelo (40 a.) e Petronilia, e Luigi (26 a.) solteiro.

9º Brambiglia, Pascoale (33 a.) e Rachelle; Luigi (33 a.) e Giuliana com 2 filhos.

10º Castaldi, Paolo (23 a.) e Bambina.

11º Barbieri, Giovanni (52 a.) e Luigia, com 4 filhos.

12º Ratoti, Giacomo (38 a.) e Ângela.

13º Benedetto, Tomazzo (38 a.) viúvo, Giorgio e Eugênia, sem filhos.

14º Boccardi, Carlo (42 a.) e Catarina, com 3 filhos.

15º Mauri, Carlo (39 a.) e Luigia, com 4 filhos.

16º Colombo, Ângelo (33 a.) e Maria, com l filha; Giovanni, Mateus, Antônio, e Ambroggio, maiores, solteiros.

17º Mariani, Antônio (20 a.) e Giuseppina (l7 a.) que constituíam o casal mais novo.

 

Além dos rapazes solteiros, já agrupados segundo os nomes de família, figuravam ainda entre os primeiros povoadores de Caxías do Sul os seguintes: Eugênio Pegoreti, Giacomo Lamperti, Colli Ferruzzi, Luigi Porta, Zacarias Missaglia, Pietro Mame, Ângelo Maggine, Carlo Pergoni, Luigi Gervasoni, Francesco Maggine, Carmelo e Alessandro Andregoni, Agostino Salmori, Francesco Santo Agostino, Filippo Colonni, Gaspare Sardo, Natale Bonadeo, Giacomo Ferrari, Severino Conzi, Eurico Sangagli, Giuseppe Angeli, e Angelo Faccionello.

 

Como se observa da relação, imigravam famílias inteiras, como os Radaelli, os Crippa, os Boratti, mas também jovens casais em plena lua de mel, como aqueles Mariani que somavam ambos 37 anos e rapazes que vinham à aventura constituir aqui famílias. Teriam, é claro, que esperar novas levas, pois nessa primeira as meninas mais idosas eram Rosa Barbieri e Luigia Radaelli que contavam respectivamente 14 e 12 anos.

Certo nem tôdas essas famílias e rapazes se perpetuaram em numerosos descendentes. Mas, em geral, a família do colono era rica de filhos e D. Barea cita como exemplo a de Francesco Basso, chegada a D. Isabel em 1879 com mulher e 7 filhos e que já em 1925 se compunha de mais 63 netos, 98 bisnetos e 7 trinetos no total de 177 pessoas; a de Giusepe Mariani que, chegado com a espôsa em 1876 em Nova Milano, contava no ano do cinquentenário 80 descendentes, e a de Giovanni Barea que totalizava 102.

Em julho de 1876 começaram a chegar os imigrantes'ao Campo dos Bugres, ou seja aos lotes das 5ª, 6ª e 7ª léguas. A sede da que seria depois chamada "A PÉROLA DAS COLÔNIAS" teve a sua planta aprovada pelo Presidente Marcondes de Andrade a 10 de janeiro de 1879, o qual autorizou o diretor a providenciar na construção da igreja, no local assinalado no plano referido, pela quantia de Rs. 2:000$000, já concedida pelo Ministério da Agricultura.

Mal terminara a divisão dos lotes urbanos ali se estabeleceram Felice Laner, Luigi di Canali, Giovanni Paternoster, tiroleses; Giuseppe Sassi, e família, e Daniele Benetti, mantuanos, e Roberto Lunardi, toscano. A primeira casa construída foi a de Laner, feita de troncos de pinheiros superpostos, com a aparência de verdadeira fortaleza.

 

O desenvolvimento da colônia foi rápido, e aos 10 anos de sua criação contava já 13.818 habitantes.

 

O quarto núcleo de população italiana no Rio Grande do Sul, em ordem cronológica, mercê de sua situação no centro do Estado, do seu desenvolvimento por três municípios distintos, da vizinhança do grande centro ferroviário que é Santa Maria, não logrou o destino da maioria dos outros: constituir-se município autônomo.

 

Iniciada a colonização de Silveira Martins em começos de 1877, a ela foi dirigida uma leva de 70 famílias que navegou até Rio Pardo e fêz o restante do percurso em carretas, durante 15 dias, para chegar ao destino -- o Barracão de Imigrantes, no Val de Buia. Dela faziam parte, segundo o Cav. Ancarani, antigo vice-cônsul em Santa Maria, Prospero Pippi, Pedro Salla, Francisco Mezzomo, Domingos Panis, Antônio Fantineli, Domingos e Guerrino Rech, Pedro e Guerrino Lucca, Valentim Zambonato, David Monaco, Matteo Borrin e vários ramos de família Dotto, compreendendo cêrca de 40 pessoas. Chefiavam-na Lorenzo Biassus e Giovani Frota. Uma segxinda leva composta de 70 famílias chegaria logo após, e no ano seguinte mais 170 viriam se alojar em seus lotes.

 

A colônia, atingindo em pouco o planalto, se estendeu rapidamente por novos núcleos entre os quais Vale Vêneto, Vale Veronese, Nova Palma, Norte, Nova Treviso e Dona Francisca, situados nos municípios de Santa Maria, Júlio de Castilhos e Cachoeira, além de Arroio Grande, na baixada, à margem da Estrada de Ferro.

Vale Vêneto dista cinco quilômetros da sede de Silveira Martins e 22 léguas de Cachoeira. Vale Veronese pertence igualmente, em parte, ao referido município, embora fique apenas a 12 quilômetros de Silveira Martins. Dona Francisca e Nova Treviso ficam a 36 quilômetros da sede da antiga colônia e pertencem hoje a Cachoeira e Júlio de Castilhos, respectivamente. Nova Palma, o núcleo mais distante, fica 39 quilômetros.

Do comércio de Silveira Martins e Santa Maria saíram as famílias Callage, Rosário, Cauduro, Di Primio, Aita Lôndero, Toffoli Cullau, Sartori, Fogliatto, e muitas outras que se difundiram pelo estado ganhando projeção e relêvo.

 

Além dessas colônias italianas que constitulram os núcleos iniciais do povoamento das matas da borda do planalto, muitas outras se estabeleceram na Província e depois no Estado, com rápido e notável desenvolvimento.

 

Entre os núcleos formados de italianos fundados pelo Govêrno Geral colocam-se os de Alfredo Chaves, em 1884; São Marcos, que data de 1885, estabelecido então no território de São Francisco de Paula; Barão do Triunfo e Vila Nova, ambos de 1888, nos municípios de São Jerônimo e de Santo Antônio da Patrulha; Antônio Prado, iniciado em maio de 1889; Ernesto Alves, então no município de Santiago, em 1890, e Marquês do Herval no de Osório, de 1891; fundadas pelo Estado contam-se as colônias: Guaporé, iniciada em 1892, Chimarrão, no município de Lagoa Vermelha (l897), Anta Gorda, então em Lajeado e Itapuca, em Soledade, dos quais provém o município de Encantado, e Maciel nos municípios de Canguçu e Pelotas, tôdas de 1902.

 

Das colônias particulares povoadas por imigrantes italianos a mais antiga é a de "Vila Nova", nos arredores desta capital, fundada por Vicente Monttegia; "Visconde de Rio Branco" em Cruz Alta e "São Paulo" na Soledade, tôdas de 1898. Seguem-se-lhe os de São Miguel (Cachoeira) e Dörken & Cia., (Guaporé) em 1899, os núcleos de Araçá (8/3/l9Ol), Cacique Doble (3/4/l9Ol), Sananduva (l/6/1902), e São Ricardo (9/5/1904), todos em Lagoa Vermelha, e os lotes de Bastian & Cia. (l9O6), Deodorópolis (l9O8), e Ed. Palassin (l9ll), em Guaporé.

 

Nas grandes colônias mistas do vale do Uruguai, é notável a contribuição do elemento italiano ao povoamento de Erechim, colônia fundada por proposta da Diretoria de Terras e Colonização de 6 de outubro de 1908, começada a povoar em fevereiro de 1910 com a chegada ali da primeira leva composta de quatro famílias com 28 pessoas e 8 solteiros e emancipada em 30 de abril de 1918, já com 32.000 habitantes.

 

VII. VINHO, PÃO E PRODUTOS SUINOS

 

Colonizado o Rio Grande por povos habituados a beber vinho por água, desde cedo desenvolveu esforços no sentido de produzir, o seu próprio vinho. Já na Capitania o capitão-mor Manoel Bento da Rocha, fabricava em Pelotas de 5 a 6 pipas e Manuel Macedo, em Rio Pardo, chegou a produzir 15 pipas num ano, merecendo honrosa provisão da Junta de Comércio do Rio de Janeiro.

Os imigrantes renanos traziam igualmente alguma tradição enológica e aqui chegados com as suas vides, entraram a cultivá-las para o consumo.

Pode-se, entretanto, atribuir a João Batista Orsi, pois que viera especialmente para isso, a fundação da viticultura colonial, em 1825.

 

Não progrediu esta, porém, como seria de desejar.

 

E se é certo que se ia procluzindo para o consumo, só muito mais tarde começa o vinho a aparecer na pauta de exportação com quantidades ínfimas e sob o título de "Vinho Nacional de São Leopoldo". Em 1872 há, por exemplo, anotados 8 barris, e em 1881 já se apontavam 23.

Narra o Dr. Celeste Gobatto que desde os primeiros anos o imigrante italiano procurou adaptar à nova terra os bacelos que trouxera da Europa. Preocupado com o insucesso que, em geral, experimentou, não sabia como dar-lhe remédio.

Mas, descendo de suas montanhas com os primeiros produtos para venda no Caí, depara nas imediações de Feliz as belas latadas de Isabel do calono germânico e desta entrou a fazer a base da vinicultura rio-grandense, dada a sua robustez e grande resistência mesmo às geadas tardias, visto que rebrota carregada de cachos.

 

Por volta de 1896 o Govêrno do Estado entrou a animar a iniciativa do colono italiano no sentido de obter vinho nacional de boa qualidade. Importou bacelos, fundou uma Estação Experimental de Agronomia, na qual se fizeram as primeiras análises dos vinhos produzidos, aconselhando-se a correção do mosto e outras medidas indispensáveis, sobretudo, à conservação do produto.

Em 1898 mandou vir 25.000 bacelos por intermédio da Casa João Adolfo da Fontoura Freitas e os fêz distribuir aos colonos de Caxias do Sul, Antônio Prado, São Marcos, Alfredo Chaves, Ijuí, Bento Goncalves, e também a agricultores de São Leopoldo, da Tristeza e a proprietários de chácaras nesta capital, com o que dispendeu Rs. 3:199$760, mais 42$500 de embalagens e carretos. No ano seguinte importou do Uruguai mais 20.000 bacelos, gastando a quantia de Rs. 2:751$878 com os mesmos e 175$500 com o seu transporte para as colônias. Enquanto isto, a Estação Agronômica estudava a adaptação de viníferas e comparava os produtos das castas finas e das comuns, realizava enxertos etc. Dêsse modo já em 1901 podia distribuir 8.800 bacelos de produção própria, o que continuou a fazer até 1910, quando foi cedida à Escola de Engenharia.

Por essa época estabelecera o Estado em Guaporé um pôsto agronômico que, sob a direção de Lucanno Conedera, entrou a enxertar castas finas e aconselhar a substituição de Isabel por estas, ensinando o processo de enxertia mais ao alcance dos colonos.

O próprio pôsto produziu, em 1910, 250 litros de vinho de Vernácia branca, 250 de Cabernet, 250 de Merlot, 500 de Marta e 250 de Isabel.

 

Coube a Antônio Pierucinni e Abramo Eberle, agricultores e industriais caxienses bem conhecidos, a introdução do vinho riograndense em São Paulo. O primeiro conduziu em lombo de burro os primeiros barris a São Simão onde os vendeu, e o segundo, dois anos depois, em 1900, se arriscou a levar à própria cidade de São Paulo, vinho e graspa que encontraram aceitação.

Criou-se assim para a colônia italiana um mercado certo, como incentivo à produção. Aos poucos foram conquistados outros mercados brasileiros, mas não a ponto de evitar a superprodução que, afinal, se manifestou, ameaçando de ruína a nossa vitivinicultura, por volta de 1928.

 

Fundou-se então o Sindicato Vinícola, depois transformado em Instituto Rio-grandense do Vinho, com o fim de regular a produção e obter a progressiva melhora da qualidade do artigo através da substituição da Isabel por castas de viníferas e híbridas. Ao lado do organismo oficial de defesa que, então, só congregava os industrialistas, organizaram-se, sob a orientação entusiasta do agrônomo do Ministério da Agricultura, Dr. Paulo Mosetsohn Monteiro de Barros, dezenas de cooperativas de produtores.

 

Da ação de ambos os grupos e sobretudo graças aos valiosos trabalhos da estação Experimental de Viticultura e Enologia, de Caxias do Sul, resultou que, embora se esteja longe da total substituição de cepas que se faz necessária, já o nosso vinho não tema, por algumas de suas marcas mais reputadas, o confronto com o estrangeiro comum; também, o tipo corrente de vinho em barris melhorou consideravelmente.

 

A produção vem-se mantendo nos últimos anos acima de 50 milhões de litros. Em 1946 atingiu precisamente a 57.291.637 litros no valor de Cr$ 117.209.604,00, números sem dúvida altamente expressivos, se tivermos em conta que se verificam em apenas 15 municípios nos quais predomina a colonização italiana.

A maior produção vinícola é a de Caxias do Sul que registrou naquele ano 24.352 Hl no valor de 55,6 milhões de cruzeiros; segue-se-lhe Garibaldi, com 9,159 Hl e 12,4 milhões e Bento Gonçalves com 8,610 Hl e 20,2 milhões.

A base da alimentação do camponês lombardo ou vêneto é a "polenta". Uma larga fatia dêsse substancial bôlo de farinha, de milho cozido, algumas fôlhas de salada e um litro de vinho, constitui, quase sempre, a sua refeição matinal. E a polenta acompanha os demais repastos como elemento principal, a menos que haja "pasta sciuta", o conhecido talharim ou macarrão, de farinha de trigo.

Necessàriamente, assim, seria a do milho a lavoura de base da região, visto que, servindo ao homem, serve também à criação doméstica e é consequentemente dupla fonte de produtos alimentícios. Quem diz milho diz também aves, ovos, porcos, banha, produtos de salsicharia, etc.

Lavoura que admite largo tempo para sementeira, pois esta se pode estender de agôsto a janeiro; de pouca exigência quanto ao preparo da terra, foi iniciada logo após a primeira coivara, e prossegue intensa até hoje, aproveitando ladeiras íngremes e grotões até o esgotamento do terreno que se deixa então repousar, crescendo a capoeira para nova queimada. Afirma o Dr. Gobatto que nas terras recém-desmatadas chegou-se a semear de 8 a 10 vêzes no mesmo lugar o precioso "grano-turco".

 

Daí que, tomando-se a produção dos 15 municípios de maior população colonial descendente de italianos, se verifique que colhem 42 % do milho produzido no Estado. Dentre os povoados compostos exclusivamente de colonos peninsulares, são maiores produtores os de Nova Prata com 66.000 toneladas no valor de 35 milhões de Cruzeiro e de Guaporé com 63.900 toneladas no valor de 32 milhões.

Ao lado do milho, plantou o colono, empiricamente, o trigo para o próprio consumo, usando sementes importadas. A partir, porém, de 1900 entrou o Govêrno do Estado a incentivar o aumento das sementeiras, animando o plantio, sobretudo, nas colônias novas. Das sementes distribuídas inicialmente aos colonos, em 1901, pequena foi a colheita em virtude da sêca.

 

Mas, aos poucos a lavoura tritícola se foi desenvolvendo. Em 1909 colhiam-se 15.250 toneladas, em 1913 já a colheita se elevava a 53.694, para ultrapassar em 1923/24 de 110.000 toneladas. Destas, cêrca de 70 % provinham da zona colonial italiana, principalmente de Alfredo Chaves que era o principal produtor, Caxias do Sul, Guaporé, Bento Gonçalves, Garibaldi e Antônio Prado.

 

À vista dos bons resultados colhidos, estabeleceu o Govêrno Federal em Alfredo Chaves, com a colaboração do Govêrno do Estado, que doou as terras necessárias, a Estação Fitotécnica na qual já em 1922 existiam 40 variedades de trigo em seleção e estudo.

 

Hoje, que a produção de trigo no Rio Grande do Sul se eleva a 260 mil toneladas, colhem os municípios da velha região 64 mil, ou seja 1/4 da produção total do Estado.

No conjunto, somados os demais núcleos produtores, pode-se afirmar, com segurança, que cerca de 60 % da produção rio-grandense de trigo é obra do colono italiano e seus descendentes, avaliando-se em 370 milhões de cruzeiros o respectivo valor.

 

Com pão e vinho em abundÔncia consolidou a colônia italiana a sua prosperidade. Mas não só de pão e vinho vive ela. Outras lavouras florescem em suas terras, sem porém assumirem a importância das enumeradas. Mesmo assim têm vulto relativo as culturas de feijão, batata doce, cana, cevada e mandioca.

 

Recentemente, a partir de 1933, outra lavoura promissora entrou ali a se desenvolver, graças à fácil adaptação do agricultor peninsular -- portador de larga tradição linífera -- ao seu amanho. O colono, aliás, sempre plantou linho para fibras com que alimentava as roças domésticas. Durante a primeira guerra européia, incentivada a cultura por industriais do Rio de Janeiro e estabelecida em Farroupilha a usina de beneficiamento de Gomes & Cia., chegou esta a tratar 230 toneladas de palha. Mas, deficientemente a fibra obtida, sobretudo pela falta de sementes apropriadas e pela colheita tardia com que se pretendia obter ao mesmo tempo sementes em abundância para venda às fábricas de óleo de linhaça, mal paga a palha, desapareceu em breve o interesse pelo utillissimo têxtil.

 

 Este voltaria porém quando, importando sementes da Holanda, entrou a empresa A. J. Renner desta capital a se interessar pelo produto. Posteriormente selecionou o professor José Grosmann, da Escola de Agronomia desta capital, por solicitação, daquela emprêsa, variedades mistas de línho têxtil, adaptadas às condições locais. E resolvido pela ciência e pela técnica o problema de base, inauguradas pela firma Renner & Beltrami, usinas para o tratamento da palha, de início em Farroupilha e a seguir em Veranópolis, a cultura do linho têxtil constitui hoje rendosa lavoura de inverno, ao lado do trigo. As plantações de linho se desenvolvem igualmente em Erechim onde uma terceira e moderna usina para o preparo de fibras foi há poucos anos inaugurada por aquela indústria do vestuário.

 

Dêsse modo assegurou-se ao colono, ao lado da produção da uva e do milho, culturas permanente uma, e de verão a outra, duas lavouras hibernais de grande rendimento e de segura e compensadora colocação no mercado, garantindo-se-lhe a tranquilidade e a relativa abastança em que vive, pois dificilmente poderá haver crise contemporaneamente dos quatros produtos em que se funda hoje o seu trabalho fecundo.

Para quem acompanhou de perto, como conosco aconteceu, a crise colonial de 1928/30, motivada pela superprodução vinícola, a situacão atual se pode considerar lisonjeira. A produção se vai diversificando, como vimos, e já o milho e o trigo superam em valor do vinho, tendendo o trigo a se fixar como principal lavoura anual da região.

 

Sobrevoando hoje o planalto em tôrno do Vale do Rio das Antas pela quadra final da primavera, o viajante se surpreende ante o número e a extenção dos losangos de ouro que se incrustam nas encostas e nos cimos, atestando a atividade fecunda da região e a sua riqueza. São os trigais aqui, as lavouras de linho ali, a madurar ao sol as messes fartas.

 

Tomada em conjunto a produção agrícola - exceto a de uva - dos municípios da chamada zona velha da colonização italiana, obtém-se o seguinte quadro extraído das apurações do Departamento Estadual de Estatística:

 

Municípios

Area plantada - Ha

Produção - Ton.

Valor Cr$ 1000

Antônio Prado

19.840

21.677

35.398

B. Gonçalves

16.853

18.842

28.603

Caxias do Sul

17.039

21.521

32.037

Encantado

24.702

41.921

39.274

Farroupilha

10.1359

13.907

19.286

F. da Cunha

5.578

7.195

9.661

Garibaldi

11.430

16.384

23.141

Guaporé

69.265

106.475

72.299

Nova Prata

53.545

93.923

60.452

Veranópolis

16.635

60.096

32.429

Soma

245.546

401,941

352.580

 

Por sua vez, a produção pecuária que tem no rebanho suíno o maior valor na região. assim se representa nos seus municípios:

Município

Quantidade - Kg

valores - (1.000 Cr$)

Antônio Prado

315.452

2.161

Bento Gonçalves

547.103

3.899

Caxias do Sul

4.654.219

52.807

Encantado

5.274.749

63.462

Farroupilha

506.443

2.538

Flores da Cunha

224.826

931

Garibaldi

417.498

1.834

Guaporé

5.541.033

56.386

Nova Prata

2.536.328

26.590

Veranópolis

2.562.308

33.631

Soma

22.579.959

245.239

 

Quando se manipulam algarismos como os que aqui ficam consignados é que se pode calcular o quanto vale a assombrosa tenacidade do agricultor italiano localizado, em regra, em lugares de difícil acesso e desprovidos de meios de comunicação com os centros consumidores, por largos decênios. Vimos a propósito o que foi de início a luta das colônias de borda do planalto, luta que se prolongou até 1910, ano em que foi inaugurada a via férrea de Montenegro a Caxias do Sul. Outras, porém, continuaram isoladas, e em 1911 dizia o Diretor de Terras e Colonização do Estado, Engenheiro Torres Gonçalves, em relação a Guaporé, estas palavras de quase descrença no seu progresso:

 

"Por falta de Viacão conveniente, a maior parte da região agrícola do Estado não tem o desenvolvimento que poderia ter."

"Para citar um caso de mais característicos, Guaporé, por exemplo, onde as terras se prestam bem à cultura do trigo, não pode desenvolvê-la por que o frete de um saco dêsse cereal de lá a Pôrto Alegre, custa mais de 3$000 e o trigo argentino vale na cidade do Rio Grande cêrca de 6$000, limitando-se por isso a produzir para o consumo. Em relação aos poucos gêneros que consegue produzir em condições de suportar o onerosíssimo frete por exemplo, a banha, acontece entretanto, nas ocasi§es de grandes sêcas, como sucedeu ainda neste ano, ficar o produto esperando meses na barranca do rio, no pôsto de General Osório, aguardando que as águas cresçam e até lá sujeitos à deterioração e às oscilações de preços, acarretando enormes prejuízos. Assim em muitos casos.

 

"Quer dizer, a maior parte dos municípios agrícolas do Estado tem ainda o seu desenvolvimento atrofiado por falta de vias de transporte barato."

"Muitas riquezas, e me refiro só às exploradas, ficam ai perdidas sem proveito para a comunhão."

 

Em relatório subsequente fala-nos do surpreendente progresso de Ijuí e Erechim, graças à Estrada de Ferro, e volta a mostrar a situação contrastante de Guaporé, paralisada em seu desenvolvimento pela ausência de comunicações fáceis com a Capital. Enquanto pela Viação Férrea um saco de feijão ou de milho, pagava de frete de Erechim até Pôrto Alegre 920 réis, de Guaporé até aqui, num percurso quatro vêzes menor, era o mesmo volume onerado de 3$500.

 

Era isto em 1912, e certo não imaginava o Diretor de Terras o enorme vulto que tomaria o transporte rodoviário, uma vez tornadas realmente "de rodagem" as estradas coloniais.

 

 

VIII. COLONOS INDUSTRIOSOS E ATIVOS

 

 

 

Como assinalamos já, as levas imigratórias de vênetos e lombardos, além de famílias de agricultores, traziam igualmente artífices e rapazes ainda sem rumo fixo na vida, mas "industriosos", nos termos do contrato Caetano Pinto.

Como por tôda a parte na Europa, na Itália do Norte, o camponês devia conhecer as artes e ofícios mais comuns, dada a necessidade de se bastarem a si próprias as famílias, em regra numerosas.

 

Vimos assim, desde o início, ficarem nas cidades principalmente os solteiros e vimos também deixarem a agricultura muitos chefes de família, apenas acumulada alguma economia, para se dedicarem, nos centros urbanos, aos ofícios menos incertos e talvez mais lucrativos.

 

De um grupo de rapazes de Cartigliano, província de Bassano - Vêneto - sabemos, por exemplo, que se fixou nesta capital em 1887. Trabalharam todos, de início, como pedreiros e serventes de obras, como construtores das linhas de carris urbanos e depois como empreiteiros dos serviços mais variados. Um dêles se foi para o interior, empreitando construções ou nelas trabalhando, como na Charqueada do Paredão, na Estrada de Ferro de Cacequi a Uruguaiana, onde, em consequência da revolução de 1893, perdeu quanto ganhara, com a fuga dos engenheiros antes de medido o trabalho executado. Outros aqui ficaram e acabaram por se fazerem comerciantes, prosperando.

 

Entre os prédios que edificaram nesta capital conta-se a primeira sede da Cervejaria Bopp, na rua que era então realmente da Floresta e o palacete da Independência esquina da rua da Conceição, hoje de propriedade do dr. Eurico de Oliveira Santos, que foi a primeira casa residencial de estilo neoclássico, construída em Porto Alegre. Foram esses práticos os predecessores dos Tomatis, dos Ferlinis, dos Toigo, dos Geremia, dos Cauduro, de dezenas de engenheiros-construtores, antigos ou atuais. Entre êsses imigrantes havia Pillas, Marinos, Antonellos, e Pellandas e essa é a razão por que lhe conhecemos a história desde a primeira morada no Morro do Céu que, com o Morro do Carneiro, hoje desaparecidos, eram os únicos pontos habitados da atual avenida, do Beco do Barbosa e da Rua Aurora, vale dizer da Rua Barros Cassal, para diante.

 

Nas sedes coloniais, igualmente, as primeiras oficinas, os primeiros negócios, as construções, os trabalhos das estradas, foram, em regra, obra do imigrante solteiro sem direito a concessão de lotes rústicos, como então se dizia.

 

Na colônia Barão do Triunfo, por exemplo, já no 5º ano do povoamento encontravam-se os 578 italianos ali então existentes, produzindo 10.320 quilogramas de banha, 77 dúzias de tábuas, 185 pares de calçados, 11.070 quilogramas de erva-mate, etc.

 

Em Jaguari, onde a população italiana se distribuía pelos núcleos Jaguari, Ernesto Alves e Toroquá, existia moinho e serraria a vapor, 23 engenhos hidráulicos, 16 sapatarias, 8 ferrarias, 9 marcenarias, 2 selarias, l funilaria, etc. Mesmo em Vila Nova, no municlpio de Santo Antônio, os italianos concentrados no Bocó, na Baixa Grande, e no Caraá, possuíam moinhos e três casas comerciais.

Não admirará assim que nas colônias mais prósperas e mais antigas o desenvolvimento comercial e industrial já se fizesse notar pela sua importância.

 

Caxias do Sul, por exemplo, contava, em 1892, nada menos de 10 serrarias hidráulicas e três a vapor, 2 moinhos a vapor e 50 hidráulicos, 7 curtumes, 7 fábricas de cerveja e três de licores, uma de gasosa, três de chapéus, uma de obras de vime, uma de pó inseticida, duas de sabão, 14 ferrarias, 5 funilarias, 8 marcenarias, 25 sapatarias, 12 alfaiatarias, l tanoaria, 2 selarias e 2 lombilharias, 26 alambiques, 3 teares, além de numerosas casas de comércio.

 

Mas não apenas ali a prosperidade do italiano se fêz notar. Por todo o Estado espalhou-se a corrente imigratória de artífices e comerciantes. Lamentàvelmente o censo de 1890 não classificou os estrangeiros por municípios. Mas fê-lo o de 1920, e dêle vimos que os italianos estavam presentes em tôdas as cidades e vilas então existentes. Afora os municípios constituídos dos territórios das antigas colônias, encontravam-se italianos em elevado número nos de Cachoeira (l.198), Erechim (l.680), São Vicente, atualmente General Vargas (1.114), Ijuí (825), Júlio de Castilhos (l.176), Lagoa Vermelha (l.921), Passo Fundo (l.767), Pôrto Alegre (5.587), Rio Grande (937), Santa Maria (l.636), São Francisco de Assis (737), São Francisco de Paula (683), Soledade (544) e Vacaria (649).

Do "Guia da Exportação do Estado", impresso em 1933, vê-se que das 32 fábricas e oficinas de Alegrete, 9 pertenciam a pessoas de nome italiano; das 56 existentes em Bagé, 11 eram mantidas por gente itálica; em Uruguaiana das 36 registradas 12 estavam em mãos de italianos ou descendentes; em Santa Vitória das 12 existentes 5 tinham nomes peninsulares e no outro extremo, na distante Palmeira, não faltava um Bindo com engenho de erva-mate, um Toniolo com moinho de trigo ou um Salton com fábrica de produtos suínos.

 

Por todos os quadrantes do Rio Grande os industriosos imigrantes que, dia a dia vão desaparecendo, deixaram traços do seu espírito de iniciativa e de emprêsa. Até mesmo na mais nacional das indústrias -- a do charque -- poder-se-ia anotar as firmas de Arcanjo A. Petrarca em Ibaré e de Natale Conte em Guaíba e Caxias do Sul.

 

Fazendeiros, criadores de bovinos e ovinos, ali mesmo em Lavras do Sul em pleno coração do Estado, se poderiam contar além do mesmo Betrarca (outro construtor de estradas de ferro, feito gaúcho) um José Chiapetta, um David Mazzinni, ou na farroupilha Caçapava, um Mandelli ou um Stefani, como na tradicional Cacimbinhas um Trapazza, um Brizolla e um Mariani.

Contudo isso sobrou gente para povoar o vale do Rio do Peixe, a região de Xapecó em Santa Catarina e o sudoeste do Paraná, de agricultura e indústrias transferidas para novas terras pelos filhos dos primeiros colonizadores do planalto gaúcho.

Já Lothar de La Rue, um dos agentes intérpretes da colonização observava, em 1871, que a indústria é filha primogénita daquela. E isso, realmente, se observa no Rio Grande do Sul onde grande parte da indústria tem base no artesanato rural, que recebemos com as levas imigratórias.

Em tôdas as grandes indústrias estabelecidas no Estado por emprêsas nacionais figuram nomes aqui fixados pelas torrentes imigratórias européias, sobretudo por alemães e italianos, as mais numerosas.

Se passarmos em revista cada um dos ramos da indústria rio-grandense, nêle veremos em destaque os nomes italianos acompanhando de perto, em número e importância, os oriundos da corrente mais antiga. Assim na metalurgia onde se destacam Abramo Eberle e Amadeu Rossi; na fiação e tecelagem em que se contam estabelecimentos como a Cia. Italo-Brasileira de Rio Grande e a fábrica criada por Hércules Galó no bairro que tem o seu nome; na indústria do couro, que em Caxias do Sul e Guaporé conta com grandes curtumes; na de produtos alimentícios em que há frigoríficos como os de Risso o Della Pasqua & Duvina; na de materiais de construção em que aparecem Ghisolfi e muitos outros; na de máquinas agrícolas, na de lacticínios de que foi expoente Vitório Bonfanti, na de produtos químicos, na de refratários, em todos enfim surgem os trabalhadores e dirigentes, como que por milagre, tirados da massa de agricultores imigrados para o simples amanho da terra.

Do cadastro de emprêsas industriais organizado pelo Senai, em que figura a maioria por designação e não por firmas, as prefeituras municipais, inúmeras sociedades anônimas ou por quotas, com designação específica, além de empresas mistas, contamos 1.439 firmas de italianos e descendentes, contra 1.861 de nomes germânicos. Números sem dúvida expressivos dada a diferença de 50 anos entre uma e outra Colonização.

Mas embora dêem até certo ponto a medida do desenvolvimento tomado pela indústria da zona de colonização italiana, não dizem tudo, visto a dificuldade ocorrente de, na maioria dos casos, identificar-se pela origem dos sócios, as denominações usadas.

 

Mais completa e talvez mais elucidativa será decerto a estatística industrial apurada pelo Departamento do Estado, classificada por municípios, da qual, em relação, aos que comp§em a chamada velha região colonial italiana, se apura:

 

Municípios

Nº de Estabelecimentos

Capital - Cr$ 1.000

Nº de Operários

Antônio Prado

62

3.467

87

B. Gonçalves

145

22.045

646

Caxias do Sul

442

126.940

5.660

Encantado

185

19.115

467

Farroupilha

187

10.312

556

F. da Cunha

52

3.639

526

Garibaldi

161

12.101

512

Guaporé

320

25.043

1.119

Nova Prata

253

19.001

527

Veranópolis

113

7.246

345

Totais

1.912

248.909

10.525

 

O que impressiona no quadro acima não é a soma geral que, confrontada com a dos velhos municípios da região da Encosta da Serra, apenas chega à metade de seus índices industriais pela simples razão de que contam aquêles também metade da população dêstes; é o notável desenvolvimento do parque industrial caxiense que, mal situado em relação aos portos de embarque, mais novo, e sem dúvida mais mal provido de combustíveis e de energia elétrica, pôde superar muitos velhos centros como Novo Hamburgo, Montenegro, Santa Cruz ou Lajeado. E se não supera São Leopoldo no número de estabelecimentos ou de operários, igualava-o, entretanto, já em 1946, no capital empregado na indústria.

O fato é tanto mais de notar quanto é certo que São Leopoldo não só disp§e de facilidades incomparáveis de situação, mas conta ainda com maior área territorial e população maior que a da Pérola das Colônias, tendo ainda atraído para o seu território indústrias fundadas na zona colonial do planalto, mercê da energia elétrica abundante com que conta.

O confronto, sem desmerecer em absoluto da capacidade e do admirável espírito de iniciativa do colono alemão e de seus descendentes, serve para desmentir a pretendida indolência dos latinos e, em parte, a suposta superioridade de visão econômica de que gozariam os povos protestantes sôbre os católicos.

De fato, na história da colonização do Rio Grande do Sul, em mais de uma oportunidade tiveram idênticos meios e possibilidades iguais, protestantes e católicos, nórdicos e latinos e lá mesmo de onde desapareceram irlandeses, suecos, holandeses e imigrantes de outras nacionalidades menos preparados para a emprêsa econômica, como poloneses e russos, vingou a colonização italiana e prosperou ao ponto que hoje contemplamos.

Fôrça é assim reconhecer na colonização italiana, entre nós, qualidades idênticas e equivalentes, na capacidade de adaptação e de esfôrço, na produção, na tenacidade e na inteireza moral, às que distinguem a alemã.

Em relação a ambas se pode felicitar o Rio Grande por havê-las atraído conseguindo fixá-las a seu solo fértil, fato que se foi causa da prosperidade econômica do imigrante, não o tem sido menos do progresso geral do Estado e do Brasil.

 

 

IX.ASPECTOS CULTURAIS DA COLONIZAÇÃO

 

 

 

A primeira verificação a que se chega no confronto dos resultados dos últimos recenseamentos do Estado é a de que vai, rápida e progressivamente, diminuindo o númerer de estrangeiros da nossa população.

Vale dizer que as baixas sofridas pelos componentes das antigas levas imigratórias não tem sido preenchidas, pois existindo em 1920 no Estado 151.025 estrangeiros, só dêles se encontravam 90.710 em 1940.

No que diz respeito aos italianos o decréscimo se fêz violento nos últimos vinte anos de intervalo censitário. Em 1900 se registraram 58.466. Reduziram-se a 49.136 em 1920 e dêstes restavam em 1940 apenas 18.785. Como é natural, a diminuição se fêz maior nos núcleos mais antigos. Em Bento Gonçalves reduziram-se de 2.813 a 610, apenas; em Garibaldi de 1767 a sómênte 434. Municípios há de onde quase desapareceram, restando apenas 2 em Herval, 3 em Aparados da Serra, Bom Jesus do Triunfo, Encruzilhada do Sul, General Câmara e Taquari, 4 em Rio Pardo e 5 em Caçapava e São Lourenço. Caso único de manutenção do mesmo número se verificou em Santa Cruz do Sul, onde existiam, nos dois censos, 29 italianos.

É provável, certo mesmo, que não seja apenas consequência da mortalidade o decréscimo registrado. A emigração para Santa Catarina, para o Paraná e para a Argentina deve ser responsável pelo despovoamento de centenas de lotes coloniais de Guaporé e Veranópolis, por exemplo, municípios que, no recenseamento de 1940, se verificou haverem sofrido um maior desfalque populacional.

 

Contava o segundo em 1920 nada menos de 32.395 habitantes, dos quais 4.911 italianos. Em 1940 a população descera para 16.600 habitantes que, somados aos 23.000 de Nova Prata, desmembrado de seu território, totalizavam apenas 39.600, entre os quais 1.103 italianos remanescentes. Tambem Guapore aumentou apenas de 39.380 para 45.400, enquanto que Caxias do Sul, que contava em 1920 só 33.773 habitantes, passóu a 62.800, somados os de Farroupilha e Flores da Cunha de lá emancipados.

 

O abandono da terra se fêz ali mais vultoso em razão da dificuldade de transportes a que aludimos noutro capítulo, do ônus dos impostos e da exaustão do solo, dado o processo indígena de sua exploração. Nas colônias novas de Santa Catarina, situadas à margem ou à pequena distância da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, além da terra virgem se oferecia ao colono a isenção de impostos por 15 anos com, a finalidade de atraí-lo. Famílias inteiras transferiram se para ali. E o mesmo espetáculo de desconfôrto, que caracterizara as levas vindas da Europa, se verificou à saida dos numerosos cortejos de retirantes que, entrouxada a roupa de uso, se punha a caminho de prometidas Canaãs. Por mais de uma vez nos sucedeu encontrar ocupada a vasta gare de Santa Maria por levas de imigrantes, desfeitos de cansaço e cobertos de poeira das estradas, a aguardar as novas composições ferroviárias que haveriam de conduzi-las a mais uma tentativa de prosperidade.

 

E no lugar do destino, pois que nada de fato aprenderam de agricultura racional na mais ou menos longa permanência do Rio Grande, novas derrubadas nas encostas íngremes dos vales e novas coivaras estão destruindo a terra que, no caso, ainda não chegaram a amar.

O Professor Orlando Valverde, numa excursão por São Leopoldo, Caí, Farroupilha e Caxias do Sul, em que se fêz acompanhar dos professôres Leo Waibel e Nilo Bernardes, aquêle mestre de geografia econômica e agrária, em trabalho que diz influenciado pela observação do primeiro, caracteriza os hábitos culturais do colono italiano, nos períodos que aqui resumimos:

Na área de colonização italiana, diz êle, a agricultura usa métodos rotineiros exceção feita da cultura da vinha. Na faixa cortada pela estrada de ferro já se não empregam porém métodos primitivos; é antes uma área de agricultura comercial.

"Nos lugares mais afastados, que ficam ao norte e a leste da cidade de Caxias do Sul, as comunicações com os centros mais adiantados são escassas; as populações vivem isoladas culturalmente. Em consequência, o sistema agrícola ai usado manteve o caráter primitivo. Apresenta notável semelhança com o sistema adotado pelos alemães na parte superior da Encosta da Serra. À medida que os Contatos culturais vão sendo feitos nas cidades mais importantes e ao longo das principais estradas, êste sistema agrícola vai sendo gradualmente removido de suas redondezas. Entretanto é chocante observar como a primitiva rotação da terra tem-se mantido mesmo nas proximidades de Caxias do Sul, ao lado da cultura da uva.

"Os instrumentos agrícolas utilizados, daí em diante, são o arado pequeno e a enxada.

"Descendo alguns vales, acrescenta, vê-se que o perfil transversal dos mesmos se assemelha aos dos vales da encosta da serra. Também há semelhanças no aproveitamento da terra. As encostas são cultivadas a tal ponto que só se vêem restos de mata onde a escarpa é quase vertical. A lavoura é tipicamente indígena; não há o menor indício de proteção à natureza, defesa contra a erosão, ou coisa que se assemelhe. Da ponte da Estrada Federal sôbre o rio São Marcos, chegamos a ver roças de milho cultivadas em declives de 60 graus!"

Descrevendo tecnicamente estes vales, diz o professor Valverde que nos maís largos, dada a resistência que cada lençol de trapp oferece à erosão, as encostas nunca são regulares, formam sempre uma sucessão de patamares e escarpas que terminam no fundo, muitas vêzes, por um verdadeiro cañon .

"Quase tôdas as escarpas estão recobertas por uma faíxa de mata cuja parte superior marca com certa precisão, o rebôrdo de cada terraço. Este aspecto dá uma aparência bizarra às fotografias aéreas. Tem-se a impressão de que o tipo de agricultura da região é muito avançado porque os "debruns" de mata parecem trabalhos de terraceamento para a defesa contra a erosão.

"Infelizmente isso não é verdade.

"Há porém os vales estreitos, profundamente entalhados em forma de V, alguns formando verdadeiros cañons.

"Aí é o sertão, o predomínio absoluto das matas apenas interrompidas por uma ou outra rocinha acanhada, nos lugares onde o declive é menos abrupto."

Felizmente, acrescentaríamos, nós, pois bem se pode imaginar o que seriam as enxurradas nesses "cañons" se fôssem desmatados.

 

Da transcrição feita terá visto o leitor que se atribui ali ao isolamento cultural, em que ficaram italianos e alemães, o atraso agrícola que ambos por igual apresentam logo além dos limites suburbanos das cidades e vilas. É a verdade contra a qual lutaram em vão os agentes intérpretes e inspetores de imigração e os diretores das colônias, sem que jamais lograssem ser ouvidos dos presidentes que se sucediam no poder sem tempo sequer de ler o relatório do predecessor. "Estradas e escoIas" era o binômio que viviam êles a apresentar aos instáveis governantes provinciais, sem capacidade para resolvê-lo.

 

Não foi diferente, na república, manda a verdade que se diga, o procedimento dos responsáveis pela educação.

 

É de 1890 a reclamação do diretor de Terras e Colonização a respeito das colônias italianas: "Grande, dizia êle, é a necessidade da criação de escolas onde possam os filhos dos colonos aprender a nossa língua, que deveria ser a dêles, evitando se reproduzir o que acontece nas antigas colônias alemãs". De 1892 é a observação reiterada. "╔ deficiente o número de aulas de Antônio Prado e São Marcos, maximé neste". De 1902 é o alarma de Guaporé, com 20.000 habitantes já e apenas com 2 aulas. Em 1912 dizia o diretor de Guarani: "Chego ao ponto mais triste do meu relatório, com mágoa o digo, porém a verdade deve ser ainda mais dura do que a lei, para ser verdade: há na colônia apenas 4 aulas públicas para 3.000 crianças".

 

Dos núcleos de Anta Gorda e Itapuca dizia o diretor: "A única escola existente a da sede "Carlos Barbosa" em Anta Gorda, mesmo assim regida por um professor sem aptidões. e uma escola particular subvencionada pelo município de Lajeado".

 

Erechim tinha por essa época 12.000 habitantes e também uma só escola. Passaria logo depois a contar 14, das quais 6 públicas e 8 particulares; ensinavam 7 destas apenas o alemão e l o polonês.

 

Longo seria citar exemplos, através do tempo, de reclamo sempre igual. Basta dizer que ainda em 1946 havia na Secretaria de Educação mais de uma centena de pedidos de escolas para a maioria das colônias novas no norte do Estado, até hoje desatendidos por falta de recursos e de professôres.

Mais numerosas ainda eram as solicitações de estradas, vias de transportes dos produtos e da imprescindível comunicação cultural que enseja a miscegenação.

 

Nestas condições de isolamento e de ausência da obra educacional, como imaginar a possibilidade de aprender a língua e adquirir conhecimento de técníca agrícola o colono de poucas letras, senão analfabeto?

 

O aprendizado de qualquer técnica mais apurada só poderá ser feito em qualquer das zonas antigas de colonização pela prática e pelo exemplo. Para êsse recurso tiveram de apelar a Cia. Souza Cruz quando desejou aperfeiçoar o cultivo do fumo em Santa Cruz e Santo Ângelo, e a Cervejaria Continental quando introduziu entre nós a cultura da cevada cervejeira. Do mesmo modo, ao lado das instruções impressas foi a demonstração in loco que garantiu a observância dos métodos convenientes à expansão da lavoura linífera nas antigas colônias do planalto.

 

Na vitivinicultura, igualmente, mais que as publicações entre as quais um excelente livro do Dr. Celeste Gobatto, produziram resultados os exemplos dos Irmãos Maristas, de Garibaldi; de Armando Antunes na Granja São Luiz; da Cia. Vinícola, na Granja União, e as demonstrações da Estação Experimental de Caxias do Sul. E se o professor Orlando Valverde pôde louvá-la lá mesmo onde a cultura do trigo ainda se faz "segundo o modêlo dos índios de Guatemala" como afirma, é porque tais exemplos e demonstrações se propagaram de lote em lote, enquanto que em relação ao trigo nunca as repartições ou os moinhos se interessaram em comprovar aos olhos dos colonos as vantagens de uma cultura racional.

A propagação e os conselhos da imprensa não atingem, em regra, as linhas e prazos coloniais, e do mesmo modo os boletins e folhetos não movem à compreensão o agricultor tradicionalista e, em geral, mal disposto a receber tudo o que vem da cidade, maximé das repartições do governo.

Para demonstrá-lo, em relação ao imigrante italiano, basta ver que a sua própria imprensa nunca passou realmente de um bi-semanário (isto nos melhores tempos) nesta capital e de um semanário em dialeto, de caráter religioso, editado em Garibaldi, ambos de pequena circulação. De "Stella di Italia" onde pontificou a bela cultura jornalista de Adelchi Colnaghi e do qual foi durante 23 anos gerente, distribuidor, tipógrafo e impressor o boníssimo Benevenuto Crocetta, basta que se diga que nunca teve circulação maior de 1.500 exemplares.

 

O mais foram tentativas efêmeras, como a da "Tribuna d'Italia" de Aliprandi e Aldo Dieci, em 1925, ou pasquinadas sem qualquer significação no panorama cultural da colônia.

De Adelchi Colnaghi, disse o seu mais íntimo colaborador "que à causa da italianidade e dos interesses dos italianos neste Estado dedicou abnegadamente "tuto sé stesso". Foi um estrênuo sustentáculo das instituições coloniais, principalmente das escolas e autêntico porta-voz de 22 sociedades itálicas que o constituíram seu representante ao Congresso dos Italianos do Exterior, realizado em Roma no ano de 1911".

Está por fazer-se o estudo do que foi a influência dessas associações o dessas escolas em o meio colonial. Das sociedades que conhecemos, podemos afirmar que se destinavam ao auxílio mútuo e ao culto romântico de tradições e a difusão do ensino e da literatura peninsular, sobretudo a de teatro, em nosso meio. Era, por exemplo, o que fazia a "Elena de Montenegro". Se com o fascismo chegaram a desvirtuar essas finalidades, não o sabemos; mas, o certo é que tanto as sociedades como as escolas jamais conseguiram atrair os descendentes de italianos, ao menos aqui na capital, para a "italianidade" visada pelos adeptos de Mussolini que, diga-se para honra da colônia, foram pouquíssimos entre nós. No Rio Grande do Sul os maiores admiradores do fascismo e de suas ações no sentido da recomposição do Império Romano, não eram italianos ou descendentes dêles e se entre os signatários de telegramas de apoio e os agraciados com comendas do governo de Roma, havia gente de estirpe itálíca, seriam dois ou três desejosos apenas de notoriedade.

Das escolas particulares, convém que se díga, se supriram a falta de escolas públicas com que ainda hoje lutamos, concorrendo para reduzir-se o número de analfabetos na própria colônia e no Estado que se orgulha do seu índice a respeito, nunca foram além do ensino das operações elementares de aritmética, de uma péssima leitura e estropiada escrita. O mesmo se pode dizer das escolas municipais que, na falta de professôres, lançavam mão, como ainda agora, de meros soletradores de um português quase irreconhecível.

Privamos muito com o assunto para isso poder afirmar. De uma feita, aberto concurso em Caxias do Sul para a efetivação dos mestres municipais interinos, apareceram-nos professôras desejosas de algumas lições elementares de leitura, escrita e contas. Algumas não iam além da soma de números dígitos e liam segundo a ortografia da época - "parmácia" -- e coisas tais. Apesar disso, foram aprovadas. Em Erechim ainda há pouco existiam professôres que, regendo escolas colocadas sob a invocação de grandes nomes nacionais, escreviam "Olavo Bilacky", "Helmes Dafonseca" etc.

Mas, agem os coitados por necessidade, lá onde não chega o ensino estadual ou chega intermitentemente e mal, e, por que não dizê-lo, incapaz de servir às necessidades do meio e absolutamente em desacôrdo com os costumes, as crenças, a "cultura" local.

Não fôra porém êsse ensino particular e municipal insuficiente, senão inepto, e a situação de obscurantismo das linhas coloniais "italianas" como das "alemãs", seria, sem a menor dúvida, além de alarmante, perigosa.

Na verdade, a alfabetização de que o Estado se orgulha é, em grande parte, obra sua. Mais numeroso ( O Estado, em 1946, só contava 1.484 unidades escolares, contra 4.099 municipais e 1.512 particulares e com 146.243 alunos contra 274.515 das escolas municipais e particulares), mais estável, melhor ambientado, dêle se pode afirmar que é o único que atua de fato nas zonas rurais do Estado.

E é graças a êle, ao enorme desejo de aprender das populações insuladas no interior dos municípios coloniais, que pode a estatística registrar índices de matrícula efetiva superior ao da população escolar obrigada em Flores da Cunha (l24,8), em Farroupilha (ll3,1), em Garibaldi (ll3), em Veranópolis (l08,1), em Nova Prata (l07,8), em Bento Gonçalves (l0l,8) e em Caxias do Sul (l00,l).

Imagine-se daí o que poderia ser a cultura da zona agrícola do Planalto se dotada de escola rural que merece!

Nas cidades, nem sempre essas taxas se mantêm. É o caso de Antônio Prado, de Bento Gonçalves e de Caxias do Sul, onde talvez as dificuldades da vida e as solicitações do trabalho impeçam uma maior permanência na escola ou a sua frequência por uma boa parte da população escolar.

 

Essa alta escolaridade característica do elemento de origem imigrantista é que permitia que já em 1925, no cinquentenário da colonização do planalto, figurassem os seus municípios com indices de alfabetização superior aos trazidos da Europa pelos seus povoadores. De fato, e tomando-se apenas os dados relativos aos homens (os das mulheres eram muito mais altos), verificamos que os analfabetos que não puderam firmar a ata nupcial totalizavam na Itália, em 1871 - 57,79 %, em 1881 - 48,29 %, em 1894 - 38,99 % em 1902 - 32,56 enquanto que no cômputo geral (noivos e noivas incluídas) as percentagens de analfabetos em nossa região colonial no ano do einquenteiiário não ultrapassavam de 12 % em Bento Gonçalves, 18 % em Nova Prata, 19 % em Veranópolis, 21 %, em Garibaldi, 22 % em Caxias' do Sul e Guaporé, 23 %, em Flores da Cunha e 26 % em Antônio Prado e Encantado.

Não temos à mão dados mais recentes, mas bastam os que figuram no Anuário Demográfico do Rio Grande do Sul de 1942, para demonstrar o enorme progresso realizado na matéria, em apenas 17 anos, pela população colonial do planalto.

Realmente, dela se vêem índices dos mais confortadores em matéria de alfabetização de nubentes, índices que chegaram a 99,3 % em Farroupilha, 98,2 % em Garibaldi, 97,2 % em Caxias do Sul, 95 %, em Bento Gonçalves, 93,3 % em Nova Prata, 92,3 % em Veranópolis, 92,2 % em Flores da Cunha, 91,7 % em Encantado, 90,7 % em Guaporé. Essas percentagens, superiores algumas à da própria capital do Estado onde não ia além de 94,09 % sobem de mérito quando comparadas às de municípios vizinhos ao da sede do nosso govêrno, uns modestos 82 % para Canoas, 81,6 % para Guaíba, 70,6 % para Viamão e apenas 66,6 % para Gravataí.

Não é preciso assim dizer que a população de origem colonial mais recente nivela-se rapidamente à alemã e que ambas ultrapassam de muito em conhecimento do alfabeto aos descendentes daqueles heróicos açorianos e bandeirantes do primeiro povoamento, e isso por um esfôrço próprio que, se houvesse sido bem compreendido e melhor orientado pelo Estado, poderia ter produzido resultados assombrosos no adiantamento cultural do meio e na completa assimilação dos filhos de imigrantes, cuja marginalidade, onde existe, é crime que só a nós próprios devemos imputar, já que nenhum esfôrço fizemos por evitá-la.

Não admira pois que seja a Encosta da Serra a zona fisiográfica mais produtiva do Rio Grande. Ao lado da maior densidade demográfica, há nela, como acabamos de ver, maior alfabetização, e como faz notar o professor Valverde, abundância de mão-de-obra especializada nos mais diversos misteres, de onde o surto de sua industrialização.

Incalculável é, por certo, o prejuízo do Estado por não ter proporcionado a essa gente admirável escolas práticas de agricultura, escolas técnicas, capazes de difundir, sem exigências livrescas excessivas, as boas normas de trabalho rural e industrial.

Certo a capacidade de produção da Encosta da Serra e o Planalto Médio, pode ser decupllcada a qualquer momento, como dizia em 1914 o Sr. Borges de Medeiros.

Mas, teria centuplicado efetivamente, não seria apenas potencialidade, se desde então se houvesse proporcionado aos seus habitantes, como a todos os rio-grandenses, a escola rural apta, as escolas profissionais capazes, que ainda esperamos ver estabelecidas por tôda a parte para o preparo indispensável da nossa gente e para a completa fraternidade dos habitantes da gleba comum, sem as odientas discriminações em que se comprazem alguns nativistas, dêsses que em vez do "patriotismo de vida, de solidariedade e de cooperação" que Alberto Tôrres desejaria ver implantado entre nós, sentem e se orgulham de o sentir, "um patriotismo de feição medieval com traços da hostilidade dos primitivos: de ódio tribal e gentílico; patriotismo agressivo em cuja liga o sentimento adverso ao estrangeiro sobreleva sentimento de amor pelo compatrício".

Certo êsse patriotismo primitivíssimo é, em grande parte, oriundo da incompleta educação que pôde proporcionarmos até aqui a escola primária. Mas, se reponta ainda em pessoas cultas, sobretudo nos representantes do patriciado rural em manifestações insólitas, como vimos ainda há pouco a propósito da projetada cultura do trigo em campos de Bagé, tende a se modificar nas cidades e vilas nas quais a instrução pública estadual vai atendendo ao maior número de crianças em idade escolar.

Dispondo de um professorado numeroso (embora não tanto quanto seria de desejar), mas sobretudo capaz, no qual, numa admirável prova de perfeita identidade cultural e patriótica se solidarizam em dedicação e esforços descendentes de açorianos, de alemães, de italianos, de israelitas etc., a escola estadual cumpre a sua finalidade máxima e só é pena que a ação de iguais professôres não se faça sentir também nas áreas mais remotas dos municípios do Rio Grande.

Dentre êles, 833 moças portadoras de nomes alemães e 775 de origem italiana, afirmam aos descrentes do nosso ativlssimo melting-pot a sua completa assimilação e a sua decisão de bem servir a pátria e a humanidade.

 

X. PER FINIRE

 

 

Compulsando-se o volume com que a coletividade italiana do Rio Grande do Sul comemorou há 25 anos o cinquentenário da imigração, encontram-se elementos valiosos para caracterizar o seu estado de espírito em relação ao país que os acolheu e à inevitável perda de sua descendência para a brasilidade de coração e de fato contra a qual quiseram lutar improficuamente, como vimos, alguns poucos arrivistas.

 

Benevenetto Crocetta, o seu saudoso organizador, sentindo na própria carne o espinho de isolamento da sociedade nacional, procurava explicar o porquê do fato que lhe doía: "╔ verdade, dizia, que a Itália enviou ao Brasil apenas braços: uma multidão de trabalhadores e de operários enquanto que a Inglaterra, a França e até a pequena Bélgica, enviavam-lhe milhões de esterlinos e de marengos. Por isso os italianos ouviram não poucas vêzes serem taxados de servis, dobrando-se aos ofícios mais humildes, remissivos, pacientes e capazes de suportar qualquer humilhação".

Mas, acrescentava, ignoram os fáceis censores que essa maravilhosa adaptabilidade italiana às piores dificuldades é que foi o melhor instrumento de proteção do povo, durante as incursões dos bárbaros e a dominação estrangeira, permitindo-lhe a glória da Renascença.

 

"Todos êsses caracteres que nos atiravam ao rosto como desonrosos foram os coeficientes mais úteis da nacionalidade italiana; sem êles o nosso gênio não teria podido ascender à dominação universal com o comércio, com a filosofia, com a ciência, com as letras e com as artes".

"A característica psicológica dos italianos, acrescenta, aquela que os seus caluniadores transformaram em servilismo, é a grande modéstia, a fôrça de iniciativa e de resistência de que deram prova os colonos abandonados às solidões confinadas e pavorosas da Serra Geral.

"Se não fôsse individualista o nosso colono, diz mais adiante, não teria resistido à colonização desmetódica, irracional, desapiedada, dos primeiros tempos. A fôrça de resistência do colono italiano e da mulher que o acompanhava era assim um capital precioso, sem o qual a terra teria constituído para sempre uma riqueza passiva e não lhe teria pertencido.

 

"Quem pode negar, então, conclui, que não tenha sido obra de civilização a levada à cabo pelo colono italiano, idêntico sob todos os céus de alheias pátrias?" "Assim se explica o triunfo das "multidões constantes e tolerantes", como define Lória a nossa imigração, melhor e superior a qualquer outra no mundo".

Também o Dr. Lorenzo Cichero condena a forma de colonização sem nenhum plano de que foram vítimas os italianos. Preferiria que o imigrante tivesse aqui aportado em grupos organizados e encontrassem as colônias estabelecidas em lugares acessíveis, dotadas de boas estradas de rodagem,e facilidades de comunicações. Assim, concluía, "nenhum artifício poderia falsear ou de qualquer forma diminuir a grande contribuição que tais grupos de imigrantes teriam trazido ao progresso econômico e social desta sua Pátria de adoção. Os seus filhos, se levados pela inclinação, inteligência, atividade e fortuna, a se afastarem dos povoados nativos, chegassem ao ápice da riqueza e das honras, pensariam então sempre com admiração nos companheiros de seus genitores, pois veriam neles não "pobres imigrantes", mas pioneiros, fatôres de riqueza, de progresso e de civilização, e se gloriariam de haver nascido na vilazinha por êles fundada, como de um título de nobreza".

 

Era êsse marginalismo de imigrante que aí transparece, essa desconfiança de serem mal vistos pelos próprios filhos que, evidentemente, influía no jornal, nas sociedades e nas escolas italianas.

 

Os filhos de italianos assim porém não não pensavam e não sentiam, como se verifica do próprio volume em que D. José Barea, Francisco de Leonardo Truda, Mansueto Bernardi e Ernani Fornari, decantam em prosa e verso, a latinidade, a glória da Itália e a obra dos italianos em nossa. terra. Nem será preciso dizer que não era por desaprêço aos "companheiros de seus genitores" que os rapazes do Instituto Menegatti, por exemplo, não quiseram reconhecer como necessário "para continuar estudos superiores", "conservarne lingua e cognizioni d' Itália"; e disseminar "i frutti di una completa coltura e di un'educazione italianissima".


Fig. 7 - Mapa da região de colonização.

Nota do Editor: o cartografista, Sr. H. Thofehrn, como que numa ironia do destino, comete exatamente o erro de chamar "Serra do Mar" aos Aparados da Serra, confirmando assim o dito no primeiro paragrafo deste texto...


Queriam apenas ser brasileiros, porque o eram de fato e de direito e desejavam educar-se para servir o Brasil e não a Itália.

 

Hoje que tal conflito de mentalidades desapareceu, ao menos nos centros urbanos, verifica-se não só o reconhecimento geral do muito que devemos à colonização italiana do sul do país, mas uma inteligente mudança de atitude da própria autoridade consular que, em lugar de estimular a manutenção de círculos sociais fechados e ao esfôrço perdido de ensinar italiano às crianças nacionais, prestigia o Instituto Cultural Italo-Brasileiro, entidade capaz, sem dúvida, de aproximar brasileiros e italianos e de nos fazer amar a ciência, a história e a arte do grande povo mediterrâneo.

 

A democracia italiána atual parece consciente do seu formidável ascendente moral de mãe latina e já de Roma não partem ameaças e gritos, mas as bênçãos a que a destinou o Cristo, e só com as quais lhe compete "imperare orbi universo".

Já podemos assim - os filhos e netos de italianos - dela nos aproximar reverentes e amigos, como os pracinhas que a ajudaram a reerguer-se, e dizer-lhe com Fornari:

 

Teu nome enche de luz minhas pupilas,

E os meus ouvidos de canções de avenas:

- Itália, Itália, a que mistério acenas,

Que ao teu aceno animam-se as argilas? ...

 

 

Do Lácio vem meu sangue, das serenas

Regiões das tardes diáfanas, tranquilas,

Onde é mais branco o mármore das "vilas",

E há mais unção no côro das novenas!

 

 

Sangue latino - sol fluido, aurora

Que me ilumina o peito, e onde, sem calma,

Delira um Buonarroti e um Dante chora,

 

 

Teu ritmo é a luz com que alvoradas ponho

Nas praias de Sorrento da minh'alma,

Nos canais de Veneza do meu sonho!